Câncer de Mama: da detecção ao tratamento

A palavra ‘câncer’ amedronta qualquer um. Ainda mais, o câncer de mama é um espectro assombroso na vida das mulheres. Conhecido por sua agressividade e seu desenvolvimento escondido, o diagnóstico muitas vezes acaba sendo tardio e a doença se torna fatal. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ele é o segundo tipo de câncer que mais acomete mulheres no país, e além disso, representa 25% dos cânceres femininos no mesmo.

Somente em 2019, foram 60 mil novos casos de câncer de mama no Brasil. Apesar desses dados serem alarmantes, estão sendo implantados novos métodos de diagnóstico e tratamentos mais eficientes, inclusive na rede pública, e isso vem motivando os médicos da área a concederem prognósticos mais positivos para os tumores.

Primeiramente, é preciso compreender que o câncer de mama não possui apenas uma maneira de se manifestar. Existem diversos tipos de tumor, mais ou menos agressivos e em diferentes regiões da mama. De acordo com André Murad, especialista em oncologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), existem pelo menos dois tipos principais de tumor: os carcinomas ductais e os carcinomas lobulares.

Os carcinomas ductais representam a maioria dos tumores detectados. Eles se desenvolvem nos dutos de leite presentes na mama. Dentro dessa categoria existem diversas subcategorias. “Eles podem ser ductais in situ, que é um tumor normalmente restrito à mama e que raramente dá metástases, ou invasor, que é o mais comum e é o que nós mais tememos, porque ele pode dar metástases à distância”, disse Murad. 

O segundo tipo mencionado pelo médico é um dos que exige maior agilidade para iniciar o tratamento, pois conforme dito, ele pode gerar metástases, ou seja, tumores simultâneos em outros órgãos do corpo. Também dentro dos carcinomas ductais invasores, o mais agressivo, existem subtipos: o perineural A, o luminal B e o HER2 enriquecido. Essas três divisões são baseadas na presença de uma proteína chamada HER2.

O primeiro tipo, perineural A, não apresenta tal proteína. Esse fato o torna mais brando e de tratamento mais leve. Os atingidos por essa categoria de tumor atualmente possuem um prognóstico cada vez melhor, devido à evolução nas formas de tratá-lo. Uma das grandes novidades no tratamento do câncer de mama é a chamada hormonioterapia, na qual a produção de hormônios que estimulam a multiplicação de células nas mamas é freado pela injeção hormonal. O médico declara: “No tratamento hormonal nós tivemos grandes avanços, hoje nós temos drogas chamadas de inibidoras, que potencializam muito a eficiência da hormonioterapia e produzem um grande ganho de sobrevida.” Entretanto, esse tipo de tratamento só pode ser utilizado em tumores que possuem receptores de hormônios como o estrógeno e a progesterona, o que não é sempre o caso.

Já o segundo tipo, o luminal B, possui a presença da HER2, o que faz com que ele tenha um crescimento mais rápido que o anterior. Porém, ele também possui receptores hormonais, fato que normalmente implica um tratamento combinado: uma junção entre o hormonal e a quimioterapia. O terceiro tipo, como o próprio nome sugere, é agressivo. O HER2 enriquecido possui um prognóstico ruim e o tratamento acaba sendo mais exaustivo. Entretanto, a evolução da medicina oncológica trouxe mais esperança no tratamento desse tipo de nódulo também: “Felizmente, hoje, inclusive no serviço público, nós temos drogas e terapias anti HER2, por exemplo, anticorpos anti-HER 2. Então apesar do fato de o tumor expressar essa proteína, hoje a gente consegue contrabalançar com uma terapia eficiente”, declara o professor da UFMG.

Existe ainda um tipo de tumor que preocupa os oncologistas e os mastologistas: o triplo negativo. Este não apresenta nenhuma das características citadas anteriormente, nem receptores de hormônios e nem a proteína HER2. O André Murad ainda menciona: “Esse é um tumor mais agressivo, que até um tempo atrás nós só tínhamos quimioterapia para oferecer, e agora contamos também com a imunoterapia. Ela foi aprovada no Brasil, mas ainda não na rede pública. Esse tratamento combinando imunoterapia e quimioterapia, tem melhorado o prognóstico do triplo negativo”. A imunoterapia ainda é uma novidade, que utiliza medicamentos para estimular o sistema imunológico e tentar frear o crescimento do nódulo e chegou ao país apenas em 2019.

Os carcinomas lobulares, em comparação, são menos agressivos. É possível classificá-los em duas categorias principais: in situ e invasor. O primeiro é um dos tumores com melhor prognóstico: “É um tumor que hoje em dia nós consideramos como praticamente benigno, porque normalmente ele acaba desaparecendo espontaneamente”, declara Murad. Já o carcinoma lobular invasor é um pouco mais agressivo, porém ainda é de tratamento mais brando do que os carcinomas ductais mencionados anteriormente.

Fonte: salon-melange.com

É perceptível que o câncer de mama é extremamente diverso e intrincado. Diagnosticá-lo corretamente e designar o tratamento mais adequado é um desafio que os oncologistas e mastologistas encaram. Felizmente, a ciência médica tem avançado também nesse sentido e já chegam ao Brasil novas técnicas mais precisas e rápidas de realizar um diagnóstico claro do prognóstico do paciente. 

Uma das mais famosas formas de descobrir um nódulo na mama é a mamografia. Apesar de ser um grande aliado dos médicos, recentemente tem sido implantada nas redes de hospitais a mamografia digital. Segundo o professor da UFMG, ela é comprovadamente superior à mamografia tradicional. A grande mudança entre os dois métodos de examinar é que a sua versão digital é um exame de imagem, como uma espécie de “raio-x”. “Ela nos dá maiores definições da mama, a gente consegue detectar nódulos com mais eficiência, ela tira um pouquinho das situações que podem nos confundir”, afirmou o médico. Além disso, a mamografia digital pode ser ainda mais importante no futuro, segundo André Murad: “O mais importante é que as mamografias digitais vão ser uma plataforma essencial para o uso da inteligência artificial, em que técnicas computacionais, depois de a máquina analisar milhares, ou até milhões de imagens, gerarão computadores treinados para detectar as alterações sugestivas de câncer”.

Outro método que tem auxiliado especialistas é a identificação do perfil genético molecular do tumor. Através da análise genética dos tumores, é possível determinar subtipos semelhantes e designar tratamentos e prognósticos mais assertivos para cada paciente. Segundo o oncologista, este tipo de diagnóstico é a grande tendência que segue a área da saúde: “Nós estamos na era da medicina de precisão, da oncologia de precisão, da oncologia personalizada. Cada tumor é analisado individualmente, e a gente vai, a partir daquele perfil tumoral, principalmente o perfil genético molecular, indicar o tratamento”.

Fonte: familycircle.com

Apesar das melhorias no diagnóstico e tratamento, é importante sempre frisar a importância da prevenção do câncer de mama. Recentemente foram mapeados alguns comportamentos e fatores que podem levar à uma maior propensão ao desenvolvimento da doença. Existem fatores genéticos, como a mutação nos genes BRCA1 e BRCA2, que levam a síndromes hereditárias de predisposição ao câncer, e nesse caso, o acompanhamento do paciente começa desde os 25 anos, com mamografias e ressonâncias magnéticas. Em alguns casos deste tipo, é recomendada até mesmo a retirada das mamas, realizando a substituição por uma prótese, e dos ovários. Entretanto, os casos onde há predisposição genética representam apenas 10% do total registrado. O restante das ocorrências podem ser ligadas a fatores reprodutivos e hormonais, como uma menstruação precoce (início antes dos 12 anos), não ter tido filhos ou tê-los após os 30 anos de idade, uma menopausa tardia (depois dos 55 anos) e uma longa reposição hormonal depois da menopausa.

Existem também fatores cotidianos e ambientais que podem reduzir exponencialmente o risco do desenvolvimento de um tumor nas mamas. Uma alimentação saudável e atividade física regular podem ser grandes aliados na prevenção do câncer de mama: “A grande maioria dos cânceres de mama está relacionada a fatores ambientais – má alimentação, alimentação rica em proteína animal, gordura animal, gordura trans, alimentos industrializados, artificialmente conservados, enlatados, embutidos, processados, e guloseimas. E uma alimentação pobre em verduras, frutas, grãos, peixe, que é a alimentação que protege. E depois vem o sedentarismo, as mulheres que se exercitam têm menos chance de desenvolver o câncer de mama, enquanto mulheres que estão acima do peso, sobrepeso ou obesas, também aumenta o risco. A gordura concentra uma maior quantidade de estrogênio, e a gente sabe que o estrogênio é potencialmente cancerígeno. Também há uma outra substância chamada IGF, um fator símile à insulina, que também aumenta o risco de câncer, e os níveis são aumentados em mulheres obesas”, afirma Murad. Além disso, a ingestão excessiva de álcool também foi apontada como um fator agravante.

Para diagnosticar rapidamente a doença e melhorar os prognósticos de tratamento, é essencial que as mulheres mantenham uma rotina que vai além do autoexame promovido pelas campanhas do Outubro Rosa. “Basicamente, o autoexame isoladamente não acrescenta de forma adequada o diagnóstico precoce, ele deve ser feito em conjunto com os demais exames. O principal exame é a mamografia, é o exame padrão. As mulheres de baixo risco, que não tem história familiar, que não são obesas, que tem uma boa alimentação, que se exercitam regularmente podem fazer a partir dos 50 anos”, menciona o médico.

Além de realizar exames regularmente, é preciso estar sempre atenta aos sintomas que podem aparecer: presença de um caroço fixo em uma das mamas, pele dos seios avermelhada e retraída, saída anormal de líquido pelos mamilos e nódulos nas axilas. Os sintomas podem aparecer simultaneamente ou de forma solitária. Caso reconhecidos, é de suma importância buscar um médico mastologista ou oncologista e realizar os exames recomendados. É possível buscar tratamentos diversos para o câncer de mama na rede pública, no Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2018, por exemplo, foram realizadas 45 mil cirurgias de retirada de tumores nas mamas, 3,3 milhões de radioterapias e 1,6 milhões de quimioterapias em hospitais públicos, segundo dados do Ministério da Saúde.

Fonte: health.com

Felizmente, a medicina avança em busca de melhores prognósticos para as milhares de pacientes que buscam esperança.

Autora: Luana Franzão

Fonte: Jornalismo Júnior/USP