Brasil, o pais mais deprimido e ansioso da América Latina

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O mais recente relatório sobre saúde mental, realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), revela que o Brasil é o país mais deprimido e ansioso da América Latina. De acordo com o estudo, 5,8% dos habitantes sofrem com depressão, e 9,3% com ansiedade, que engloba os ataques de pânico, o transtorno obsessivo-compulsivo, as fobias e o estresse pós-traumático. “Tomei remédio seis anos da minha vida para conseguir acordar, abrir a porta e tentar ter uma vida normal”, conta Tabatta Barcellos, de 21 anos, estudante. Como alguém que sofre diariamente, não só com a doença em si, mas com a reação daqueles ao redor dela, ela chama atenção para a falta de divulgação sobre o assunto, o que dificulta ainda mais a procura por ajuda.

“Em Porto Alegre a gente precisa completar as equipes”, afirma Gabriel Mazzini, assessor técnico em saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde. Em fevereiro de 2016, o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (SIMERS), constatou diversos problemas presentes nos diferentes níveis de atendimento psiquiátrico do SUS, entre eles a falta de leitos e a dificuldade em dar seguimento ao tratamento após a consulta inicial. Para entender melhor a situação atual, é preciso entender como que funciona o sistema, e principalmente, as transformações que ele passou.

Professora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Integradora de Ensino no Hospital São Lucas e psicóloga, Caroline Santa Maria explica que o cenário atual se dá por uma mudança de paradigma depois do que chamamos de Reforma Psiquiátrica. Esse período de transição se inicia no final da década de 70 com a mobilização dos profissionais da saúde e dos familiares de pacientes com transtornos mentais.

Uma proposta começou a ser pensada para regulamentar essa transição a partir da segunda metade do século XX, impulsionada principalmente pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia, quando uma crítica radical do tratamento e das instituições psiquiátricas começa a ser feita. Esse movimento começou na Itália, mas teve repercussões em todo o mundo e particularmente no Brasil. Dessa maneira, a Luta Antimanicomial nasce, profundamente marcada pela ideia de defesa dos direitos humanos e de resgate da cidadania. Assim, se introduz a Rede Substitutiva, em que se passa a tratar a doença mental, no âmbito da biomedicina e da loucura, como saúde mental, pensando tanto na prevenção quanto no tratamento.

“Então começamos a pensar não só em quem já tem um sofrimento psíquico, mas também em promover ações para possibilitar que essa pessoa tenha uma melhor qualidade de vida”, explica Carolina Santa Maria. Para isso, a psicóloga ressalta que o mais importante foi parar de tratar os indivíduos em um ambiente hospitalar, e começar a pensar no meio em que esta pessoa vive. “É aquele preconceito que psiquiatra é coisa de gente doida, só pessoas que têm doenças de verdade podem buscar ajuda médica, que isso não é uma doença de verdade, é só um pouco de tristeza, vai passar… E não passa”, desabafa Tabatta, que cursa Antropologia e Direito.

Ela lida com ansiedade desde pequena. “Eu era uma criança que quando os pais saíam de casa ficava imaginando todos os possíveis cenários que acabavam com a morte deles. Ligava dezenas de vezes para o celular da minha mãe para saber onde ela estava, se ela estava tudo bem. Não conseguia dormir durante a noite de jeito nenhum”, lembra. Com o passar do tempo, começou a tratar uma depressão psicótica, quadro que se agravou a partir do ingresso no Ensino Médio. Mas atualmente, deu uma pausa nos tratamentos que vinha fazendo há seis anos. “Há dois meses e meio eu não tomo mais remédios. É uma vitória de cada vez”.

Segundo a estudante, o tratamento que fazia era para a depressão psicótica. “Quando tenho surtos, acho que as pessoas estão me perseguindo, penso que coisas ruins vão acontecer comigo. Sinto que quero realmente morrer. Por vezes, fico três dias dentro de casa sem conseguir abrir a porta ou tomar banho”.

O estudo da OMS revela que o sexo feminino é o que mais sente as consequências: 7,7% das mulheres são ansiosas e 5,1% são depressivas. Quando se trata dos homens, a porcentagem cai para 3,6% em ambos os casos. “Eu nunca recorri a nenhum tipo de serviço de saúde pública, nem por telefone nem presencial. Sempre tive plano de saúde. Neste sentido, tive muita sorte”, conta Tabatta.

“Quem precisa de atendimento de saúde mental na rede pública deve procurar a atenção básica, os postos de saúde. Esses locais têm capacidade de acolher, avaliar e tratar inicialmente algumas situações. Os postos recebem orientações das equipes dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), e se o caso for mais complexo, esse apoio direciona para um serviço especializado”, explica Gabriel Mazzini. Porto Alegre está equipada atualmente com 12 CAPs (três deles são CAPS-I, da infância e adolescência, e cinco CAPS-AD, de dependência química). Além disso, a cidade ainda conta com os Residenciais Terapêuticos, que fazem parte da lei da Rede Substitutiva, em que se introduz os pacientes previamente internados a um ambiente normal, com o apoio de profissionais da saúde, visando à desinstitucionalização. A capital conta com 183 leitos psiquiátricos em hospitais gerais, sendo 117 destinados a usuários de substâncias químicas, e 66 para pacientes com transtornos mentais. Há ainda 151 leitos em hospitais exclusivamente psiquiátricos.

Caroline Santa Maria atesta a importância dessa reintrodução à vida normal. “Tínhamos um número enorme, mais de quatro mil pessoas no Hospital Psiquiátrico São Pedro, que moravam lá havia muitos anos. Pessoas que nem conseguiam mais ter autonomia, já que elas estavam lá a vida inteira com alguém ditando seus horários e atividades. Haviam perdido a própria identidade. Os Residenciais foram criados para tentar devolver autonomia a essas pessoas. o governo então forneceu casas e um acompanhamento sistemático das equipes de saúde, além de receber uma bolsa-auxílio, com a ideia de que eles possam se gerir”.

A jovem Tabatta contou mais de sua história, e como a consciência sobre sua saúde mental se desenvolveu. “Cheguei naquela época de ensino médio E aconteceram coisas na minha vida que me levaram a entrar num quadro de depressão psicótica e tive uma tentativa de suicídio.” Na conversa, ainda citou que o estigma teve um peso muito forte em sua vida, e que a fez perceber como o assunto deve ser debatido em um ambiente mais amplo em que se tenha mais empatia com aqueles que sofrem.  “Essa foi a primeira vez que eu fui procurar ajuda, depois que eu fui levada para o hospital às pressas para fazer uma lavagem estomacal, foi a primeira vez que procurei ajuda, que eu falei sobre isso, que eu falei para o que eu tava passando, isso porque tinha muito estigma.”

“O estigma ainda predomina, o que dificulta a inserção das pessoas e das doenças na sociedade, como algo normal. É sempre visto como alguém fracassado”, afirmou Caroline Santa Maria.

 

Texto:   Letícia Alano
FONTE: Famecos/PUC-RS