Brasil está no último lugar do ranking de prestígio de seus educadores

Levantamento da Varkey Foundation, de 2018, avalia a educação de 35 países

Pesquisa, do ano passado, feita pela Varkey Foundation, entidade que busca melhoria na educação mundial, prova que o Brasil está muito longe de dar a notoriedade necessária a seus educadores. No levantamento realizado em 35 nações, o país caiu para a última posição do ranking de prestígio de docentes, ficando atrás dos também emergentes Egito e Uganda. Os dados evidenciam o olhar de indiferença do coletivo, em que 88% da população considera o trabalho como sendo de “baixo status” e menos de um em cada 10 brasileiros (9%) acha que o professor é respeitado em sala de aula. 

“O desrespeito é cada vez maior”, conta Elisabeth Moeller, 55 anos, professora de Educação Física recém-aposentada, após trabalhar 17 anos no Estado. Ela acredita que, muitas vezes, os estudantes chegam à escola sem educação alguma e os pais cobram da instituição o trabalho que deveria ter sido feito por eles em casa. “Além de desenvolver seu conteúdo, o professor precisa educar um aluno que não respeita nem os pais”, complementa. Na sua opinião, o melhor a fazer é colocar-se em uma posição de não enfrentamento, demonstrar companheirismo e incentivar a escuta e o respeito mútuo entre mentor e aprendiz. “A maior dificuldade ainda está na questão do estímulo e pagamento”, aponta. Elisabeth, especializada em psicomotricidade, faz atendimento particular com crianças especiais a fim de estimular a capacidade motora delas. Além desse trabalho, ajuda o marido na produção e venda de pizzas, na intenção de completar o salário que recebia da escola.

Elisabeth Moeller, professora de educação física aposentada. Foto: Lara Moeller – 12.10.2019

Carine de Oliveira Frank, 35 anos, professora do Colégio Municipal Deputado Victor Issler, do bairro Mário Quintana em Porto Alegre, compartilha do pensamento de Elisabeth sobre o desrespeito. Ela conta já ter vivenciado situações dentro de sala de aula que a marcaram negativamente, como ser chamada de “chinelona” por uma criança de sete anos após ter dito que mandaria um bilhete em sua agenda. Acredita que os pais devem estar presentes na comunidade escolar, tendo a consciência de que a instituição não é um depósito de alunos. “Somente com o trabalho cooperativo entre a escola e os pais essa situação poderá mudar”, afirma. Carine, que teve seu salário parcelado por alguns meses e já não recebe o reajuste da inflação, teve que buscar alternativas para complementar sua renda. Há dois anos, trabalha com “pet sitting”, sendo babá dos cães e gatos de outras pessoas. “Eu deixo de fazer muitas coisas por conta do meu salário e tenho que organizar minhas férias com quase um ano de antecedência”, conta.

Carine de Oliveira Frank com os cães dos quais toma conta. Foto: Tainá Costa (15/10/19)

A pesquisa evidencia os reflexos do sucateamento do ensino e o pouco incentivo à profissão, na qual apenas um em cada cinco brasileiros incentivariam o filho a ser professor. Elisabeth e Carine estão entre os 80% que não o fariam. “Eu fui uma que fiz de tudo para que minha filha não fosse professora. Apesar de ser uma profissão bonita, ainda requer muita luta e desgaste”, afirma Elisabeth. 

INCENTIVO À LICENCIATURA

Na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), melhor universidade privada do país segundo o Ranking Universitário da Folha 2019, existe a Bolsa Licenciatura, programa que busca justamente atrair estudantes para os cursos de licenciatura, oferecendo uma redução de 40% em todas mensalidades de todos os semestres. Ana Carolina Rodriguez Régio, 18 anos, está no 4° semestre de Pedagogia e usufrui do desconto. Ela não acredita que a bolsa encoraje mais alunos a ingressarem na faculdade, contudo, julga o recurso necessário visto que muitos não têm condições de pagá-la integralmente.  

A baixa remuneração ajuda a explicar a desvalorização do professor no Brasil. Segundo a pesquisa realizada em novembro de 2018, estima-se que os profissionais tenham um salário médio inicial de U$ 15 mil anuais (equivalente, naquele mês a R$ 4.800 mensais). Na prática, o pagamento médio é de U$ 13 mil anuais (R$ 4.200 mensais na época), contudo, apenas os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Maranhão alcançaram essa meta, conforme o Ministério da Educação. O MEC estipulou o piso salarial para 2018 em R$ 2.455 para uma jornada de 40 horas semanais. Na comparação, o Rio Grande do Sul é o estado com o menor salário dentre os demais 26 e Distrito Federal, pagando apenas R$ 1.300, o que corresponde a um pouco mais da metade do valor estabelecido nacionalmente. Segundo dados atualizados do Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers) há um déficit de 391 professores nas escolas estaduais, sendo português a disciplina mais carente, com uma falta de 42 profissionais.  

Natália de Lacerda Gil, 42 anos, doutora em Educação e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), entende que a desvalorização do trabalho do educador não está vinculada à dificuldade ou relevância do cargo. “Não me parece que ser médico seja uma atividade fácil, menos tensa, estressante ou desafiadora, e mesmo assim, as pessoas querem ingressar na medicina”, completa. Para ela, a formação do professor é falha no quesito de implementar sua didática com autoridade, não conseguindo lidar com diferentes faixas etárias e particularidades de cada aluno. Porém, crê que a profissão só não deixou de existir devido à relação entre as pessoas. “Isso que prova o quão útil é o trabalho do professor”. 

Na UFRGS, onde Natália leciona, é baixa a procura por cursos de docência. Laura Rolim de Souza, 18 anos, cursa o 1° semestre de licenciatura em Matemática e só conseguiu a transferência de bacharelado por conta do número de vagas remanescentes. O curso tem menos de três alunos disputando uma vaga, enquanto Medicina apresenta uma densidade de 76 vestibulandos.  

Estudante de licenciatura de Matemática, Laura Rolim de Souza. Foto: Bruna Portella (15/10/2019)

Horas adicionais em excesso, mais de um local de trabalho, salas muito cheias e escassez de recursos farão parte da rotina de Ana Carolina e Laura, mas isso parece não desanimar as estudantes. “Apesar de pouco valorizada, a profissão de educador é aquela que ensina todas as outras. Um dos meus maiores incentivos é ver que tudo que ensino para os pequenos dá resultado. Eles aprendem, ajudam os colegas e mostram em casa o que foi dado por mim”, conta Ana Carolina que já teve a vivência dentro de sala de aula. Para Laura, a maior satisfação é poder compartilhar conhecimento e participar da formação de um cidadão. “Eu espero que o curso me dê bases e experiências suficientes para me tornar uma boa profissional. Com meu trabalho, espero poder alcançar a todos e proporcionar as ferramentas necessárias para que tracem seus futuros”, projeta.

Bettina Steren dos Santos, 58 anos, pedagoga e coordenadora do Grupo de Pesquisas “Processos Motivacionais em Contextos Educacionais” da PUCRS, que estuda os métodos de estímulo no ensino, acredita que o reconhecimento dos educadores passa por um trabalho sistêmico. “A valorização do professor deve ser uma mudança de cultura”, conta. Ela entende que a atual formação dos professores e sua didática estão equivocadas, pois focam apenas no conteúdo que deve ser trabalhado em sala de aula. “Essa forma de entender a escola, como um negócio, tira o lado de humanização da relação escolar”, complementa. Apesar do cenário desanimador da educação, Bettina se mostra otimista em relação à mudança provocada pelas escolas inovadoras que estão sendo implementadas no estado. Na sua opinião, a qualidade de vida das pessoas e a crise de valores existente estão ligadas, diretamente, à instabilidade do sistema educacional. “Precisamos ter muita vontade para que, juntos, possamos pensar em alternativas para termos um futuro melhor”, conclui. 

Pedagoga Bettina Steren dos Santos. (15/10/2019). Andrei Pereira

Autor: Felipe Conte, Andrei Pereira Bruna Portella, Lara Moeller e Tainá Costa

Fonte: Famecos/PUC-RS.