Bairros mais pobres votam em candidatos de centro e direita

PUC-RS
Levantamento do Editorial J em 11 áreas aponta liderança de Melo

Nos bairros mais vulneráveis, a disputa para o ocupar o cargo de prefeito foi vencida por candidatos que estão mais à direita do espectro político. O Editorial J analisou os votos válidos para Prefeitura de Porto Alegre, a partir das informações disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dos 11 bairros com o índice de vulnerabilidade social abaixo da média (Arquipélago, Serraria, Lageado, Anchieta, Lami, Mário Quintana, Chapéu do Sol, Lomba do Pinheiro, Farrapos, Cascata e Agronomia). Pelo levantamento, o candidato Sebastião Melo (PMDB) ficou à frente, com 33,2% (14.273) dos votos no primeiro turno e Nelson Marchezan (PSDB) obteve 19,9% (8.546).

O índice de vulnerabilidade social foi construído pela Fundação de Assistência Social e Cidadania em parceria com a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dentre outros aspectos, foram analisados os indicadores de abastecimento de água, esgotamento sanitário e analfabetismo. A partir disso foi estabelecida uma escala que varia entre 0 e 1, sendo 0,5 a média. Quanto mais próximo de 1, menor a vulnerabilidade social do bairro.

A realidade social desses bairros indicaria um possível maior número de eleitores de candidatos de esquerda, ideologia que teoricamente estaria voltada a programas sociais e maior igualdade econômica, mas em realidade isso não aconteceu. O bairro Arquipélago, com maior índice de vulnerabilidade, dedicou 40,7% (1.317) de seus votos para Melo (PMDB), enquanto Raul Pont (PT) teve 14,7% (475). Já o bairro Lomba do Pinheiro, com maior número de votos válidos, teve 33,2% (3.270) de seus votos para Melo (PMDB) e 17,4% (1.715) para Pont (PT), quase metade dos votos do primeiro citado. Outro dado interessante do cruzamento de informações: nestas áreas da Capital, o candidato Maurício Dziedricki (PTB) ficou em terceiro lugar, com 17,7% dos votos válidos.

Primeiro-lugar-nos-bairros

Luiz Eduardo Garcia, mestre em Ciência Política pela UFRGS, analisou esses dados e traçou o perfil ideológico dos dois candidatos mais votados. Para ele, ambos, Sebastião Melo (PMDB) e Marchezan (PSDB), estão à direita no espectro ideológico, embora o primeiro esteja mais ao centro.

“Sebastião Melo (PMDB) representa um modelo mais tradicional de fazer política, ligado ao seu partido, à importância de uma gestão compartilhada com outros partidos e que confere importância à atuação do governo na política”, esclarece. Segundo o cientista político, Melo seria um representante menos liberal, e não tão conservador. “Em um possível governo Melo, não observaríamos muitas privatizações, nem fechamentos de secretarias”, acrescenta.

Já sobre Marchezan (PSDB), ele aposta ser um candidato realmente de direita. “Mesmo que ele afirme não se enquadrar nas tipologias ideológicas, ao sujeito interessado não restam dúvidas acerca do seu posicionamento. Ele é um candidato privatista, que pretende enxugar a máquina pública e que se posiciona contrariamente ao modo tradicional de formar coalizões políticas”, pondera.

Garcia ainda observa que as definições ideológicas de esquerda e direita representam uma simplificação da realidade e que elas podem variar conforme o tempo e o lugar. Ou seja, as definições anteriores não são as mesmas de hoje e as do Brasil não são as mesmas dos outros países.

Quando questionado sobre os candidatos com o perfil ideológico que mais corresponde ao dessas pessoas em vulnerabilidade social, o cientista citou Raul Pont (PT) e Luciana Genro (PSOL), mas os números não afirmaram essa correspondência na comparação realizada pelo Editorial J. 16,9% (7.266) desses bairros em vulnerabilidade dedicaram seu voto ao Pont (PT). Já a Luciana (PSOL), apenas 10,6% (4.567).

O cientista declara que isso acontece devido ao fato dessas pessoas terem preocupações diferentes das pautadas por esses candidatos em campanha. “As questões pelas quais eles estão preocupados são questões mais práticas, factíveis. Eles estão preocupados com saneamento básico, asfaltamento, creche. A principal questão é essa da política do dia-a-dia mesmo e os partidos de esquerda não fazem muito esse discurso”, afirma.

Garcia ainda cita os movimentos sociais e fala sobre o como eles se tornaram inacessíveis para a camada mais pobre da sociedade. “Esses novos movimentos sociais, a ampliação dos direitos humanos, até a defesa de programas e políticas afirmativas estão muito nucleadas no ambiente acadêmico, dialogando pouco com a sociedade”, diz.

Os dados foram analisados da seguinte forma: em um primeiro momento foram listadas todas as seções eleitorais de cada bairro em vulnerabilidade, somando 159. Posteriormente, através do site doTribunal Superior Eleitoral (TSE), cada seção foi acessada e seus votos computados, em um total de 42.967 votos válidos.

Texto: Gabriele Lima (2º sem.)

FONTE: Famecos/PUC-RS