Artistas independentes são marcas da Vila Guiomar

METODISTA

Artistas independentes são marcas da Vila Guiomar

Grafiteiros, fotógrafos, poetas de literatura marginal. Estes são exemplos de artistas independentes da tradicional Vila Guiomar, em Santo André. Eles trazem para o bairro um trabalho autoral, com pinturas pelos muros, poesia pelo chão e registros de manifestações culturais.

Um desses artistas é o Guilherme Augusto, 31. Conhecido profissionalmente como Gafi, ele iniciou no grafite aos 15 anos e mantém um ateliê na garagem do avô. Localizado nos prédios do IAPI (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriais), o local permanece diariamente aberto à curiosidade dos vizinhos.

A moradora da vila e aposentada Tânia Regina Lacerda, 59, acha muito importante esse tipo de trabalho no local para aprimorar a cultura e convivência dos moradores. “Quando Gafi está no ateliê ou pintando algum muro muitas pessoas perguntam sobre o sentido das obras, principalmente as crianças. Sempre aparece alguém por lá”.

Gafi chegou a trabalhar como garçom, mas foi nas artes plásticas que encontrou sentido e novos rumos. “Eu resolvi começar a faculdade de Artes Plásticas em 2006 e ampliei o olhar sobre que tipo de projeto eu desejava desenvolver”, comentou ele ao explicar a mudança no seu trabalho ao longo dos anos. Com isso, migrou do grafite para as artes plásticas e chegou a participar de uma exposição em Portugal, além de outros estados do Brasil.

Atualmente o artista plástico decidiu resgatar parte do seu trabalho com a arte de rua. Com sete murais grafitados na Vila Guiomar ele quer retomar alguns projetos inacabados. “Alguns deles eu iniciei em 2005 e, a cada ano, procuro renová-los”, disse.

Sobre essa retomada, Gafi acredita ter um cunho educativo à população do bairro. Alguns dos trabalhos são feitos nos muros dos prédios de moradores e são uma forma de conquistar a população para este tipo de arte. Ele também acredita que é uma forma de deixar o ambiente melhor. “Ao invés de ter uma cor base, como só o cinza, quero renovar o espaço, deixando-o mais agradável, pois é o local onde todos nós moramos”, comentou ele.

Essa proximidade, segundo Gafi, faz com que ele tenha um olhar mais próximo das dificuldades de quem vive no bairro. “Muitas vezes eu acabo criando um vínculo maior com as crianças. Compartilho algumas dificuldades em certos temas da vida”.

Gafi também disse que considera importante a aproximação da população com a cultura e a arte. Ele acredita que o contato que teve com eventos patrocinados pela prefeitura estimulou-o a prosseguir no segmento. “Acho que a manifestação artística deve ser resultado de encontros, oficinas, workshops e educação voltados para isso”.

Poesia e Fotografia

Além do grafite e pintura, a Vila Guiomar abriga a fotografia autoral e poesia, com Daniel Tossato e Zhô Bertholini. Fotógrafo e jornalista, Tossato, 33, iniciou um de seus trabalhos independentes no ano de 2005 com o registro e pesquisa sobre pichação. Ele disse que se interessou pelo assunto por acreditar que as pinturas nos muros fazem parte das cidades. “Compõem o território e horizonte urbano. A Vila Guiomar sempre teve uma molecada que pichou e eu me interessei.”

Tossato nasceu e ainda mora no bairro. Ao longo dos anos, ele conseguiu aprimorar seu trabalho e atribui isso ao surgimento das redes sociais.

Foto de Daniel Tossato em exposição na Vila Guiomar, Santo André – Foto: Denise Primavera/RRO

“Eu criei um paralelo entre as redes sociais e a pichação. Ambos estão muito presentes na vida das pessoas”. Ele comentou que vem, inclusive, utilizando o celular para tais registros.

Tossato acredita que a pichação é um reflexo de como a cidade trata quem vive nela. “Na maioria das vezes é de uma forma opressora”, completou.

Expressão pela cidade é algo também presente nas produções de Zhô Bertholini, 64. Morador da Vila Guiomar há 57 anos, ele é poeta, artista gráfico e produtor cultural.

O artista iniciou na vida cultural independente na década de 70 com a participação no primeiro Salão Nobre de Arte Contemporânea de Santo André. Fez poemas para a vila em que mora e, segundo ele, é conhecido por muitos como “o poeta”.

Bertholini foi um dos responsáveis pela criação do veículo poético mais antigo do Brasil, a revista A Cigarra, que circulou por 25 anos. Ele comenta que chegou a convidar pessoas do meio para apoiar o projeto, porém não houve interesse. “A literatura e a poesia são as primas pobres das artes. Ela não dança, não canta e sapateia”, comentou ele sobre a ausência de apoiadores da iniciativa.

Poeta Zhô Bertholini, em apresentação na Vila Guiomar, Santo André – Foto: Thalita Ribeiro/RRO

Em 2015 Bertholini fez uma ação por Santo André, em parceria com a prefeitura, pintando pelo asfalto frases de seus poemas. Ele também tem versos escritos dedicados à Vila Guiomar. “Tenho a sensação de pertencimento. Eu pertenço à cidade e ela me pertence”.

A moradora Tânia Lacerda também conhece o trabalho de Bertholini. “Imagina você sair para ir ao mercado e ler poemas no asfalto. Foi uma coisa bem legal. A iniciativa foi muito boa”, disse. Ela comentou sobre a importância de manifestações culturais no bairro. “Eu nasci aqui e não tive essa oportunidade. Porém, vejo que o que dificulta é o custo financeiro”, completou.

Texto: Ariel Correira, Mariana Sana e Thalita Ribeiro

Fonte: Metodista