Arte e história despertam crianças para busca do conhecimento

Professoras e artistas, contadoras de histórias renovam ambientes de aprendizado

Uma sala com um círculo de cadeiras vazias e almofadas no chão, junto a caixas de jogos e apetrechos que aguardam as crianças e o espetáculo na Escola Estadual de Ensino Fundamental Coelho Neto, no bairro Bom Jesus, em Porto Alegre. Os quadros na parede observam o ambiente desocupado e as histórias na estante anseiam por serem contadas. O cenário se alegra quando a criançada começa a sair de suas salas de aula em direção à biblioteca, que se completa rapidamente com olhos cheios de sonhos, curiosidade e admiração. 

O vínculo entre o profissional e seu público se fortalece ao decorrer da atividade, os dedos erguidos evidenciam muita interação e aprendizado mútuo. As reações são coletivas, os jovens compartilham risadas nos momentos engraçados, conforme Maria Paula Conte descrevia a história sobre um porco, com o animal presente na sala. Esta mesma conexão auxilia nas horas de apreensão, como na narrativa de terror feita por Carmen Lima. Todos, ao saírem pela porta, levam novas concepções de mundo que serão ajustadas às particularidades de cada um. Quem dá o conto também parte diferente de quando chegou para apresentá-lo.

Livros, teatro e o amor pela profissão fazem parte da rotina de duas contadoras de histórias de Porto Alegre. Maria Paula Conte, 58 anos, bacharel e licenciada em psicologia, trabalha na biblioteca da Escola Municipal Deputado Victor Issler, desde 2014. Além de teatro, fez cursos de biblioteca escolar e pública e ainda divide suas atenções com grupos de escotismo. Carmen Lima, 50 anos, formada em pedagogia, trabalha na biblioteca da escola Coelho Neto desde 2012. Além da contação de histórias, lida com musicalidade e reforço para alunos do primeiro ao nono ano. Ela, que fez curso de teatro e teatro de bonecos, também atua como animadora de festas infantis. 

A habilidade de Carmen é resultado da combinação de dois fatores: a veia artística herdada de seus pais biológicos e as condições de estudo proporcionadas pelos adotivos. “A genética influencia e o meio te propicia. Esse casal que me adotou me deu toda a possibilidade de estudo, de conhecer outras culturas, pra eu poder alinhar com a minha carga genética”. Na opinião dela, gostar do que faz e acreditar na história que conta é essencial para o trabalho, visto que é preciso senti-la para conseguir transmitir, de fato, sua veracidade. Oralidade, boa dicção, postura e olhos que captem o público para si também ajudam, mas acima de tudo, dominar o assunto. “Requer muito estudo, não é só era um vez e foram felizes para sempre que formam um bom contador. Tem que pesquisar a história de outros povos, a origem das histórias e consultar várias fontes. A pesquisa é contínua.”

Carmem Lima contando histórias para as crianças da Escola Estadual de Ensino Fundamental Coelho Neto. Foto: Lara Moeller (21/08/2019)

O contato com crianças desde cedo e a convivência com a família italiana, teatral por natureza, potencializaram a vocação de Maria Paula. “Eu digo que tenho uma artista em potencial dentro de mim, que se manifesta de acordo com a situação”. Para ela, um bom contador precisa ter uma certa dramaticidade para conseguir expressar a emoção necessária para o devido momento, para isso, é indispensável sentir-se à vontade com seu público. “Precisa ter essa expressão tanto na voz como no corpo, muito jogo de cintura para a improvisação e flexibilidade para conduzir a história”. 

Para a psicóloga Maria Paula, a contação de histórias tem todo o ganho cognitivo e afetivo que está presente também na leitura, sendo benéfico tanto para quem a conta como para quem a escuta. “Quando se ouve uma história, se expande o vocabulário, linguajar, fluência e diversidade de personagens, dando vazão à atenção e imaginação.” A sua maior dificuldade no trabalho é a memorização de texto, por isso, ela costuma ler o conto ou opta por improvisa-lo. “Sempre que eu conto uma história, eu acrescento algo nela, mesmo lendo, eu sou a rainha da improvisação”.

Paula Conte na biblioteca da Escola Municipal Victor Issler. Foto: Lara Moeller (30/08/2019)

Quando Carmen, que é negra, começou a inserir as histórias em sala de aula, em 1997, não havia princesas ou personagens negros, portanto, ela os desenhava e confeccionava, como fazia com seus brinquedos durante a infância. A professora acredita na importância da representatividade das diversas variedades do ser humano. Foi no evento Afro do Sarau Sopapo Poético, encontro que celebra a cultura negra, que Carmen consolidou sua identidade recitando a história de seu nome próprio. A narrativa, que permanece no repertório dela, reúne personagens de sua adoção que influenciaram no desenvolvimento pessoal e profissional da artista. Maria Paula compartilha da habilidade para fabricação de materiais, que considerada como sendo uma das atribuições do contador. “Também precisa ser produtor de arte, para a escolha do conto, do cenário e da fantasia para melhor ambientar a história no imaginário da criança.”

Maria Paula alinha a contação com o calendário anual e a aplica para o aprendizado de assuntos relacionados a outras matérias. Além do caráter educativo, a atividade também apresenta caráter terapêutico, visto que a maioria das crianças enfrenta diferentes realidades das que encontram ali, onde podem compartilhar suas vivências. “Eu faço construção de histórias juntamente com as crianças, pois, antes, dava aula de produção textual”, relata a psicóloga. Carmen utiliza da mesma técnica de Maria Paula e reforça a importância de eles também se expressarem. “Muitas vezes eu tenho uma programação na minha história, que eles vem com um fato que está perturbando e é momento deles, onde cada um dá sua opinião. Não tem por onde tu contar algo se eles estão com maior necessidade de falar do que escutar, daí a ouvinte sou eu.” 

Ambas acreditam no poder da profissão e consideram necessário que mais pessoas a exerçam. Maria Paula entende que muitos já têm o desejo de atuar como contador de histórias, mas, às vezes, falta o convite. “O argumento maior é ver a alegria das crianças. É muito gratificante”, conta. “De vez em quando uma história tem mais alcance do que a própria voz de uma mãe. Elas tem esse poder de levar a verdade e a consciência para quem as ouve”, complementa Carmen. “A melhor parte do meu trabalho é quando eles acreditam, com olho, com medo, com nojo, com amor, com pena, com dó, com choro. Quando tu consegue passar essa emoção e tu tem isso de volta”, conclui. 

Autor: Felipe Conte

Fonte: Famecos/ PUC-RS.