André Comte-Sponville e a materialização das virtudes

As reflexões sobre os valores sociais.

O “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” (Editora Positivo, 2009, 392 páginas), do filósofo André Comte-Sponville, traz um conjunto de reflexões sobre virtudes, além de análises sociais de suas aplicações na vida real. O autor também critica algumas interpretações de certas virtudes e o quanto cada uma é vista. O livro é interessante para quem gosta de uma leitura reflexiva, pois traz questionamentos sobre os valores construídos pela sociedade. Contribuições que tornam a leitura agradável e informativa.

O primeiro capítulo é sobre a polidez, que não é uma virtude em si, apenas uma qualidade. Ela dá origem às outras virtudes, por esse motivo não pode ser uma delas. A polidez é o que chamamos no cotidiano como “educação” e se reflete por que essa se limitaria à uma qualidade. Sponville é perspicaz ao argumentar que qualquer um pode ser polido e ao mesmo tempo ser cruel, e, dessa forma, tornar sua crueldade mais evidente: “a polidez torna o mal mais odiável porque denota nele uma educação sem a qual sua maldade, de certa forma, seria desculpável”.

Algumas reflexões são deleitáveis por deixar o leitor em sua zona de conforto, como o capítulo da gratidão, que André Comte-Sponville acerta em dizer que é a mais agradável das virtudes: “a gratidão é um segundo prazer, que prolonga um primeiro, como um eco de alegria à alegria sentida […]”.

Já no meio do livro, o escritor promove um certo desconforto ao leitor, por trazer ideais de que certas virtudes são desvantajosas para quem as retém. Isso ocorre no capítulo “Tolerância”, no qual o autor defende a ideia que essa só se vale contra si mesmo e a favor de outrem. Outrossim, é ressaltado que o excesso dessa virtude põe em risco ela mesma. Este é o paradoxo da tolerância.

Ao falar sobre a boa-fé, Sponville apresenta uma virtude que se manifesta após a análise das circunstâncias. Todavia, mesmo que as intenções sejam boas da parte do indivíduo que faz a ação, se faz necessário deixar outrem ciente de certos fatos incômodos: “dizer a verdade ao moribundo, quando ele pede, quando ele pode suportá-la, pode ser também ajudá-lo a morrer na lucidez (mentir ao moribundo não é lhe roubar sua morte, como dizia Rilke?)”.

“Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, de André Comte-Sponville, mestre de conferências da Universidade de Paris I, é uma obra magnífica que instiga o leitor a olhar para si mesmo, suas análises sociais e ações, mesmo que isso gere desconforto em alguns momentos (seria o livro uma materialização de boa-fé?).

Autor: Laís Alves.

Fonte: PUC-RS.