Análise do filme “Edward Mãos de Tesoura”

capa-texto-1

Um dos filmes mais conhecidos e venerados de Tim Burton, “Edward Mãos de Tesoura” conta a história de um jovem incomum, construído por um inventor que acabou morrendo antes de conseguir finalizá-lo. Por isso, o homem não conseguiu trocar as tesouras das “mãos” do jovem por mãos reais.

Alheio a tudo e todos, o inventor era o único contato que Edward (Johnny Depp) tinha com um ser humano, e aprendeu com ele poucas das normas que regram a sociedade. Por isso, era ingênuo e inocente. À partir da morte do homem, Edward fica sozinho no grande castelo onde moravam. No entanto, tudo muda quando a revendedora Avon Peg Boggs (Dianne Wiest) o leva para morar com ela na cidade. Diferente, o jovem chama atenção assim que chega.

“Edward Mãos de Tesoura” é uma grande crítica à sociedade. Apesar de ter sido lançado há 26 anos, o filme ainda consegue ser muito atual: fala sobre uma burguesia “perfeita”, que discrimina tudo que lhe é diferente, tentando moldá-lo em seus padrões, mas que na realidade é vazia e soberba. Tudo ali é tão normal e monótono que o quê diverte os moradores é a fofoca. No dia a dia, os vizinhos pouco tem contato uns com os outros, porém, é só alguém novo chegar que rapidamente se forma uma aglomeração de curiosos.

Segundo o próprio diretor, a cidade do filme é uma representação de Burbank, local onde Burton nasceu e cresceu. Fazendo alusão à época do “american way of life”, na qual a felicidade era alcançada através do consumismo, as casas do filme foram pintadas em tons pastel para criar, assim, alusão a uma perfeição e felicidade.

Os personagens da cidade foram inspirados em pessoas que o diretor conhecia e secretamente desprezava. As donas de casa, com roupas coloridas, unhas feitas e cabelos arrumados só reafirmavam a ideia de perfeição. Burton quis representar cada uma delas de uma maneira diferente: uma é uma mãe preocupada com os filhos; outra já não os teve e, com o marido trabalhando, usa seu tempo livre em romances com outros homens; já a mais diferente de todas não é casada, é extremamente religiosa,

sozinha e extremista. Apesar de diferentes, todas tem uma rotina em comum: cuidam da casa, de si mesmas e da vida dos outros.

Burton utiliza o Grande Plano Geral em seu enquadramento para mostrar os maridos indo e voltando de seus trabalhos e dar a ideia de monotonia para o espectador. Tudo ali acontece da mesma forma todos os dias: saem todos juntos, no mesmo horário, com precisão, e na hora de retornarem às suas casas tudo se repete. A cena também reforça outro aspecto do “american way of life”, o “self made man”, “homem que se faz sozinho”, em português. Ou seja, o homem que, através de seu trabalho, consegue ficar rico.

2

Edward está longe de ser considerado “normal” dentro dos parâmetros daquela sociedade. Além de ter sido construído em um laboratório, ele não liga para valores materiais, não demonstra ganância, não trabalha e não é consumista. Por isso, o personagem é sempre representado com cores escuras. Tudo que é relacionado ao protagonista é preto, sombrio: suas roupas, o castelo onde vive e seus cabelos. Em uma cidade colorida e certinha, o escuro e desorganizado (os cabelos desalinhados de Edward e sua roupa remendada) estão ali para reforçar a ideia de algo “de fora”.

1

2

Edward é um outsider e suas mãos de tesoura são uma metáfora para a sua inabilidade de se comunicar com os outros. É como se fosse impossível alcançá-lo, mesmo que pelo toque. Apesar de ter uma figura que lembra facilmente um ser maligno, Edward é ingênuo e bom. No entanto, ao invés de abraçarem o jovem como ele é, as pessoas oferecem soluções para ajudá-lo a se ajustar ao resto. Quando percebem que esta mudança é impossível, o veem como um ser nefasto e o perseguem.

Fica um tanto claro as referências que Tim Burton tira do Expressionismo Alemão para criar o visual de Edward. Seu personagem mostra certa semelhança com o sonâmbulo de “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920), grande símbolo do movimento.

Para Burton, o personagem não deixa de ser uma representação sua na adolescência, época de incompreensão e deslocamento. Assim como Edward, o diretor também era um jovem peculiar, com gostos excêntricos e únicos que o afastaram cada vez mais da sociedade.

Os únicos personagens que conseguem, por maior tempo, aceitar Edward são os da família de Peg Boggs. É lá inclusive que o jovem conhece Kim (Winona Ryder), uma adolescente com um temperamento forte que acaba se apaixonando pela bondade do personagem. Ela é uma das poucas pessoas que o entende. Sua constante caracterização com roupas brancas a faz lembrar um anjo.

A atmosfera do filme é construída para passar a ideia de um conto de fadas: a música passa um tom onírico, e por vezes lembra um coral de anjos, e o cenário, atemporal, ajuda a criar a concepção de uma grande fábula. O próprio filme se inicia com a premissa de explicar o surgimento da neve, que viria das tesouras de Edward esculpindo gelo em seu castelo.

Em uma das cenas mais bonitas e delicadas do filme, Edward está trabalhando no gelo quando Kim chega com seu vestido branco e dança embaixo da neve que cai. Com o uso de um leve slow-motion e de um close-up no rosto da moça, somos submersos em um momento mágico: vivenciamos com ela o quão belo e excitante é sentir pela primeira vez o gelado da neve em seu corpo. A música atrás só reforça a delicadeza e magia daquela bela cena.

345

 Ana Cláudia Bettoni Martins é estudante de cinema da Universidade Anhembi-Morumbi. E, também colaboradora do Clube do Jornalismo.