Alta-costura: um jogo entre a tradição e o novo

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Já imaginou se seus mais extravagantes desejos de moda fossem realizados sem que você precisasse gastar um só centavo? Esse é o privilégio de algumas atrizes e cantoras que cruzam os tapetes vermelhos das grandes premiações. Porém, como Cinderelas contemporâneas, elas vivem esse sonho só até o final da festa. As roupas, os sapatos e as jóias costumam ser concessões feitas às celebridades por casas de Alta-costura e, portanto, devem ser devolvidos. Trata-se de uma troca de benefícios: o look dos sonhos pela ampla divulgação de uma marca em um evento transmitido mundialmente.

Essa função publicitária é um dos pilares que ainda sustentam a Alta-costura, segmento que por si só desafia as leis de mercado, uma vez que costuma gerar produtos incapazes até mesmo de ressarcir seu custo de produção. Outro importante papel atribuído ao setor é manter o status de luxo das marcas, estimulando o desejo de compra e a demanda pelos produtos que geram lucro direto para tais empresas, como acessórios, cosméticos e peças prêt-à-porter, ou “pronto para usar”. Além disso, o segmento também é responsável por promover inovações técnicas e estéticas, devido a sua grande disponibilidade de recursos e o alto nível de especialização que exige de seus profissionais.

Tal caráter inovador está presente no segmento desde seus nascimento, em meados do século XIX, mais precisamente entre o outono de 1857 e o inverno de 1858, quando Charles-Frédéric Worth inaugura sua casa de costura na rue de la Paix em Paris onde, segundo o sociólogo Gilles Lipovetsky, “pela primeira vez, modelos inéditos, preparados com antecedência e mudados frequentemente, são apresentados em salões luxuosos aos clientes e executados após escolha, em suas medidas” (O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas, Companhia das Letras, 1989).

Parte do acervo do Metropolitan Museum of Art, vestido de Charles Frédéric Worth possui influência do Art Nouveau. Imagem: Reprodução

Cerca de meio século depois, o ramo parisiense já era referência de estilo para a moda mundial e ditava as novidades de forma sistemática. Ainda de acordo com Gilles, a partir de então, “os profissionais estrangeiros compram os modelos de sua escolha com o direito de reproduzí-los no mais das vezes em grande série em seus países,[assim] a clientela estrangeira podia vestir-se na última moda da Alta-costura a preços acessíveis”.

Com a inserção das mulheres no mercado de trabalho e a consequente necessidade de vestimentas menos elaboradas, a Haute Couture francesa perdeu sua hegemonia sobre a inovação e a produção de tendências. O prêt-à-porter também passou a revolucionar a moda, com criações cada vez mais práticas e confortáveis, como o vestido envelope, lançado por Diane von Furstenberg nos anos 1970.

Diane Von Furstenberg em um vestido envelope, sua mais famosa criação. Imagem: Roger Prigen

Em relação às tendências, hoje, elas podem partir até mesmo dos consumidores. Isso ocorreu com movimentos culturais, a exemplo do hippie e do punk, e agora acontece nas redes sociais, por meio dos chamados “influenciadores digitais”.

As mudanças sociais ocorridas até os dias de hoje acabaram por promover mudanças também no tipo de roupa produzida sob os moldes da Alta-costura. Com clientes cada vez mais jovens e ativas no mercado de trabalho, as coleções da área não mais se restringem a vestidos de gala e investem também na alfaiataria.

Jean Paul Gaultier apresenta elementos de alfaiataria em coleção primavera 2017 de Alta Costura. Imagem: Yannis Vlamos

Porém, nada disso diminui a preciosidade com a qual cada peça é produzida, pois a Chambre Syndicale de la Haute Couture (Câmara Sindical da Alta-costura) tem como um de seus objetivos manter a tradição do processo. Ela estabelece regras rígidas para aceitar uma grife como membro classificado na categoria. Entre as obrigatoriedades estão possuir um ateliê no “triângulo de ouro”, as célebres avenidas parisienses Champs Elysées, George V. e Montaigne, confeccionar peças sob medida com pelo menos uma prova de roupa e ter uma produção completamente artesanal e a apresentação de duas coleções anuais com 35 looks cada, incluindo peças para o dia e para a noite.

Para quem não trabalha no meio e não faz parte do seleto grupo de clientes, ou colecionadores, da Alta-costura, pode ser difícil mensurar a complexidade de seu processo de produção. Ainda assim, hoje, a internet permite que se tenha pelo menos uma noção de como tudo acontece. Marcas como CHANEL e Christian Dior divulgam, em seus canais do YouTube, filmagens de bastidores que são de encher os olhos de qualquer um.

CHANEL Primavera-Verão 2017:

Os segredos das flores da Dior:

Em uma análise superficial, o ramo da Alta-costura pode parecer apenas um grande espetáculo de futilidades para um grupo extremamente privilegiado. Estudando mais a fundo, porém, não há como negar o importante papel realizado por ela. Suas peças de alta qualidade são preciosos documentos para a história da moda, a farta disponibilidade de recursos, concedida a seus criadores, faz dela um terreno fértil para inovações e a sua relativa independência em relação ao mercado lhe confere uma liberdade criativa que a aproxima da arte.

Por Letícia Vieira Santos (Jornalismo Júnior/USP)