Alan Fonteles, é do Brasil!

Alan Fonteles nasceu competindo. Com menos de um mês de vida, perdeu as duas pernas, porém esta seria uma das últimas vezes em que seria derrotado. Aos 13 anos, já era campeão brasileiro dos 100 metros. Aos 16, disputava sua primeira paralimpíada. Aos 20, era ouro em Londres. Aos 21, bateu o recorde mundial. O Arquibancada andou, ou melhor, correu, da infância até os principais momentos da carreira de Alan Fonteles Cardoso de Oliveira, um dos maiores atletas paralímpicos brasileiros.

A infância e o sonho

Nascido em Marabá, no Pará, no dia 21 de agosto de 1992, Alan soube cedo que não seria fácil. Na terceira semana de vida, teve de amputar as duas pernas, devido a uma infecção intestinal. Entretanto, em entrevista ao Arquibancada, o brasileiro afirmou ter encarado bem sua amputação precoce: “Como amputei as pernas ainda recém-nascido, aprendi a andar com prótese, então foi natural lidar com isso”. A situação também não impediu o pequeno paraense de curtir a infância brincando de corrida, jogando bola, soltando pipa, fazendo tudo que uma criança sem nenhuma deficiência faz”, e talvez esse seja o fator determinante para o sucesso de Alan: uma infância que o permitiu sonhar.

Então, aos 10 anos, enquanto via alguns vizinhos praticando atletismo, Alan sonhou – decidiu que seria um atleta. E já no mesmo ano, o garoto não só conheceu a categoria na qual competiria – a T-43 para bi-amputados – como iniciou os treinos na modalidade, tudo com um só objetivo: Ser o melhor”, afirmou AlanContudo, a primeira prova de que ele realmente poderia chegar ao topo só veio em 2005, quando venceu os 100 metros rasos no Campeonato Brasileiro de Atletismo.

O mundo conhece Alan Fonteles

Com apenas 15 anos, o paraense já despontava como uma das maiores promessas do paradesporto. Portanto, iniciou a preparação para sua primeira grande competição: As Paralimpíadas de 2008, em Pequim. Exatamente por ser muito jovem na época, Alan fez uma preparação tranquila e sem qualquer tipo de pressão – o que foi essencial para seu sucesso na ocasião.

Em 2008, então, o brasileiro viajou com a delegação brasileira para a China. Seria a primeira grande chance de Alan provar para o mundo e para si mesmo que podia chegar ao topo. O resultado foi excepcional: com apenas 16 anos, o brasileiro retornou para casa carregando uma medalha de prata, conquistada no revezamento 4×100. O atleta comentou aquele momento: “Desde quando comecei no atletismo, eu queria ser o melhor. Então sempre confiei no meu potencial. Mas a confirmação veio quando conquistei a medalha de prata em Pequim”. 

A grande arrancada

Após o que chamou de experiência Fantástica de Pequim, o brasileiro mudou-se para São Paulo, visando treinar em alto nível e se preparar para a próxima paralimpíada – que ocorreria em Londres. Até 2012, foram quatro anos de suor e sacrifício para Alan, porém, chegada a data do evento, o atleta estava no seu auge, e a expectativa era grande por medalhas.

Já em Londres, o paraense chegou à final dos 200 metros rasos. Era a chance de, mais uma vez, mostrar ao mundo quem era Alan Fonteles. Porém, naquela prova ele teria pela frente Oscar Pistorius – um dos maiores ícones da história do esporte paralímpico. Foi dada a largada, e nos primeiros 120 metros da corrida Oscar deixou todos os demais competidores para trás e disparou rumo a mais um ouro. Entretanto, mal sabia ele que logo atrás vinha um brasileiro imparável, de garra, de fôlego. Nos últimos 80 metros, Alan arrancou, se agigantou frente a um dos maiores. Passada a linha de chegada, os telões do Estádio Olímpico de Londres anunciavam: Alan Fonteles; brasileiro; medalha de ouro.

O abraço de Pistorius em Alan após a corrida demonstrava a insatisfação de um ídolo do atletismo, que viu um garoto de 20 anos deixá-lo para trás. Foi, sem dúvida, um grande momento tanto para Alan quanto para todos os brasileiros que acompanharam aquela final. “A emoção foi muito grande, pois batalhei muito para estar lá [na final], me dediquei e abdiquei de muita coisa. Poder colher os frutos com aquela medalha foi algo maravilhoso, contou o brasileiro sobre aquela ocasião.

Após a conquista do ouro, Alan cumprimenta Pistorius [Imagem: Getty Images]

200 em 20

No paradesporto, o ouro em uma paralimpíada é o topo, o ápice de qualquer atleta, mas o brasileiro não parou por aí. Um ano depois de Londres, ele disputava a final dos 200 metros no Mundial Paralímpico de Atletismo, em Lyon, quando voltou a surpreender o mundo. Não com a vitória, pois ela já era previsível na ocasião, – o principal concorrente, Oscar Pistorius, estava afastado das pistas naquele momento – mas sim por algo ainda maior, mais marcante.

O paraense voou na pista francesa, foi incrível: 20 segundos e 66 centésimos após soar o sinal de largada, ele já cruzava a linha de chegada e marcava o novo recorde mundial da prova. Superava a marca anterior de 21 segundos e 30 centésimos, pertencente a Oscar Pistorius – sim, ele de novo. Alan se perpetuava como algoz de um dos seus maiores ídolos do esporte. 

Todavia, diferentemente de Londres,quando optou por uma comemoração acanhada, em Lyon, Alan não se conteve e festejou muito o feito já na pista. O atleta contou um pouco deste momento espetacular: “Recordes foram feitos para serem quebrados, não estava preocupado em bater, mas veio junto com a medalha. Quando vi que tinha batido fiquei louco, comecei a gritar e festejar, foi muito bom”.

Um período conturbado

Entretanto, nem só de bons momentos se faz a carreira de um atleta. O brasileiro havia conquistado tudo, entrado para história, porém, no início do ano seguinte, 2014, ele surpreendeu o mundo do atletismo ao dizer que perdera a alegria de correr e que precisaria tirar um ano sabático. Então, só retornou às pistas em 2015.

Quando o paraense voltou a correr, a imprensa levantou diversas questões sobre a sua forma física, já que o atleta aparentava estar acima do peso. O brasileiro negou as críticas e alegou estar preparado. O veredito dessa questão só viria um ano depois, nas paralimpíadas de 2016, que seria disputada na casa do atleta – no Brasil.

Já no torneio, o primeiro desafio de Alan foi os 100 metros rasos, e com ele veio a primeira decepção: o brasileiro foi desclassificado antes mesmo da final. Na sua principal prova, os 200 metros, a história se repetiu, e Alan sequer chegou a decisão. Entretanto, o brasileiro, hoje muito mais maduro, trata esse momento como um aprendizado muito grande: “Achei que estava preparado. Analisei tudo depois e vi que não estava, então tive que lidar com tudo isso”.

Uma trajetória extraordinária

Nem mesmo Alan Fonteles escapou das derrotas, apesar de as vitórias serem muito mais recorrentes na sua excepcional carreira. O atleta fez um balanço da sua trajetória: “Para mim é um sonho realizado. Toda minha dedicação está aí para ser vista e contada. Sei que faço parte da história e não tenho nem palavras para expressar minha gratificação. Só agradeço a Deus por tudo isso”. 

Mas a realização do brasileiro não se restringe aos títulos conquistados. Ele se diz agraciado por ter ajudado o esporte paralímpico a crescer no país. “Hoje está em alta. Está muito mais conhecido, mas as dificuldades ainda existem. A falta de patrocínio ainda é grande”, disse ainda o atleta sobre o paradesporto.

Apesar de toda a satisfação, Alan segue motivado e projeta o futuro no esporte com títulos e grandes feitos. “Almejo continuar ganhando medalhas, quero correr por mais alguns anos ainda. Estou me preparando com foco nas paralimpíadas do ano que vem, então estou treinando de segunda a sábado e competindo pelo menos uma vez no mês. Objetivo é Tóquio 2020”completou o campeão.

Alan Fonteles corre atrás dos demais adversários no Engenhão [Imagem: Daniel Zappe – MPIX / CPB]

Autor:Danilo Moliterno

Fonte: Jornalismo Júnior ECA-USP