A voz dando vida às histórias interrompidas

“Vozes de Tchernóbil” provoca inúmeras reflexões ao trazer relatos de sobreviventes do desastre nuclear ocorrido na Ucrânia em 1986.

A explosão no reator número quatro da usina nuclear de Tchernóbil em abril de 1986 é um dos incidentes industriais mais conhecidos de todos os tempos. Svetlana Aleksiévitch consegue fazer de seu livro uma história oral que oferece relatos em primeira mão de envolvidos ou afetados pelo desastre. A obra teve tanto sucesso que rendeu à jornalista o prêmio Nobel de Literatura 2015.

Somente a voz das testemunhas pode fazer justiça aos eventos e, após a narração de fatos sobre a explosão e seus drásticos resultados, a autora passa a dar lugar a quem viveu na pele o caso de Tchernóbil. A esposa de um bombeiro que levou várias semanas para morrer de envenenamento por radiação, os soldados conscritos enviados para evacuar as pessoas à força, os profissionais de saúde e cientistas que tentaram alertar as pessoas sobre os riscos da radiação, entre outros. E, assim, vão surgindo diferentes perspectivas numa sucessão avassaladora de histórias que partem o coração. 

O leitor vai sendo agarrado pelos detalhes pessoais das versões. Alguns desses registros do livro vêm de historiadores e filósofos, mas os relatos mais concretos, de vivência, são frequentemente os mais reveladores. Para muitos, o desastre nuclear está ligado à Segunda Guerra Mundial, que permanece forte na memória da geração mais antiga, e por alguns outros até o fim do comunismo e a dissolução da União Soviética, ocorrida logo depois.

A abordagem jornalístico-literária de Svetlana acertadamente pluraliza ao máximo as experiências vividas, afinal, milhares de famílias foram afetadas e um espaço como este nunca havia sido dado para suas vozes. A autora, inclusive, apenas aparece na narrativa quando ela se autoentrevista sobre o significado do acidente e o desafio que ele nos proporciona: “Eles são heróis. Heróis de uma história nova. Comparam-nos aos heróis das batalhas de Stalingrado ou de Waterloo, mas eles salvaram algo mais importante que a sua pátria, salvaram a vida. O tempo da vida. O tempo vivo”. Ela acrescenta: “Antes de tudo, em Tchernóbil se recorda a vida ‘depois de tudo’: objetos sem o homem, paisagem sem o homem. Estradas para lugar nenhum, cabos para parte alguma. Você se pergunta o que é isso: passado ou futuro? Algumas vezes, parece que estou escrevendo o futuro…”.

Quando se considera a extensão em que a autora está atravessando a paisagem irradiada, percebe-se, realmente, que ela se arriscou de uma forma que poucos escritores já fizeram. E criou um trabalho literário e informativo esplêndido. Svetlana Aleksiévitch merece o melhor dos reconhecimentos.

Autor: Eduardo Chaves.

Foto: Amanda Gorziza/Arquivo Pessoal.

Fonte: PUC-RS.