A minoria racial “modelo”: Karina Kikuti explica as dificuldades de amarelos

O Sem Estúdio recebeu a psicóloga Karina Kikuti para falar sobre o racismo amarelo.

A culpa não é do vírus

Apesar de já existir anteriormente e ser pouco discutido, a pandemia foi o principal fator para dar maior visibilidade ao debate sobre o preconceito amarelo. Muitos começaram a relacionar as pessoas amarelas com a disseminação do Coronavírus, que surgiu no continente asiático, mais especificamente na China.

O mito da minoria modelo

De acordo com Karina, apesar de os amarelos serem racializados como não-brancos, conseguiriam viver uma vida considerada o “sonho americano”. Assim, os estereótipos impostos a esse grupo são considerados, superficialmente, pontos positivos pela sociedade para uma boa convivência e crescimento pessoal. Como exemplo, ela cita o pensamento comum de que todo amarelo é mais inteligente que as outras pessoas não amarelas. Essa concepção ajuda no desenvolvimento de um racismo velado, ou seja, um tipo de racismo que é normalizado e oculto na prática.

“Somos usados como instrumento na supremacia branca para se opor contra os pretos e indígenas”, relata a psicóloga em relação às outras minorias raciais. Ela ainda explica que o mesmo sistema utiliza de estereótipos que são prejudiciais para as outras comunidades: “a leitura racial no brasil é muito ligada ao fenótipo”.

A ideia do mito da minoria modelo existe para mostrar que a racialização amarela é invisibilizada, mas isso não significa que há uma disputa para qual grupo sofre mais. Para a entrevistada, é uma estratégia de segregação de minorias e uma oportunidade de observação para pautas que unem os grupos prejudicados.

Sou amarelo(a)?

“Eu cresci me achando branca, a ficha foi caindo aos poucos”, expõe Karina sobre seu reconhecimento como amarela. Ela conta que teve dificuldade de se enturmar na faculdade e, quando aconteceu, era com pessoas não brancas, já que se via como elas.

Muitos indivíduos amarelos têm dificuldade de enxergar a sua própria identidade. Um dos maiores motivos para que isso aconteça é a denominação com o apelido “japa”, taxado a muitos que têm os olhos puxados.

Brasil e representatividade

Apesar de quase ausentes, algumas personalidades amarelas vêm ganhando espaço de fala e trabalho na mídia brasileira. Um exemplo é Ana Hikariprimeira atriz brasileira a protagonizar uma novela da Rede Globo.

Para Karina, o espaço para a comunidade não está perto de ser suficiente: “precisamos entender que existe brasilidade apesar do fenótipo remeter a outro lugar”. O Brasil é o país com a maior comunidade japonesa fora do Japão, com cerca de um milhão e meio de habitantes. A convidada deixa claro que é fundamental entender a representatividade plural e a miscigenação como parte da cultura do Brasil.

Autor: Maria Eduarda Brito.

Fonte: PUC-RS.