A guerra mais mortífera que ocorreu no território brasileiro

“Soldados da borracha” aborda a história dos extratores de látex que deram suas vidas pela vitória dos Aliados na II Guerra Mundial.

A invasão da Alemanha à Polônia, em 1939, deu início a um dos episódios mais violentos da História, a II Guerra Mundial. O regime nazista de Adolf Hitler aliou-se ao fascismo italiano de Benito Mussolini e ao nacionalismo japonês, formando o “Eixo” Roma-Berlim-Tóquio. Do outro lado estavam os “Aliados”: Inglaterra, União Soviética, França e, posteriormente, Estados Unidos. O ponto em comum entre todas as nações que se preparavam para o combate era a necessidade de borracha. Ela estava presente em cada fábrica, tanque, caminhão, navio e avião, além de outros utensílios indispensáveis. Governado por Getúlio Vargas, o Brasil, com sua vasta Floresta Amazônica, era um oásis de látex a ser explorado. 

O livro “Soldados da borracha” (ediPUCRS, 242 páginas, R$68) do casal estadunidense Gary e Rose Neeleman, descreve muito bem a trajetória dos extratores do látex na Amazônia que foram esquecidos pela história durante a II Guerra Mundial. Os recrutas, chamados de arigós (homens rudes), fugiam da fome e da seca nordestina encantados pelas promessas de dinheiro fácil, assistência médica e transporte feitas pelo presidente da República. Os detalhes trazidos pelos autores ao longo da narrativa evidenciam as dificuldades enfrentadas pelos soldados da borracha, como viriam a ser conhecidos. A começar pela viagem do Nordeste à Amazônia, que poderia levar até três meses e era acompanhada pelo medo em relação aos ataques dos submarinos alemães. Getúlio Vargas, com seu característico poder de oratória, os fez sentir como os 25.000 soldados enviados para guerrear na Europa. No entanto, destes últimos, só 457 não voltaram para casa. Enquanto que, dos 55.000 homens responsáveis pela extração de borracha, 26.000 perderam suas vidas por conta de febre amarela, malária, dengue, beribéri e dezenas de outros problemas da selva. 

Após o ataque dos japoneses à base naval norte-americana de Pearl Harbor, em 1941, os Estados Unidos decidiram ingressar na guerra com todo seu poderio bélico. Para isso, precisavam importar toneladas de borracha, material que estava em falta na América do Norte. Os britânicos extraíam látex de seringueiras plantadas no Sudoeste da Ásia, graças ao biólogo Henry Wickham que, em 1876, contrabandeou 70 mil sementes de Hevea brasiliensis (a seringueira amazônica). Porém, o Japão havia bloqueado o fornecimento de matéria-prima dos produtores asiáticos aos Aliados, restando como única opção o Brasil. Os acordos de Washington, assinados entre Getúlio Vargas e Franklin Delano Roosevelt, estabeleceram que o governo americano passaria a investir maciçamente no financiamento da produção de borracha amazônica, enquanto o governo brasileiro encaminharia os trabalhadores para a região. 

Os contratos deixam claro que o pagamento do dinheiro para os seringueiros pelo trabalho e sua condição era responsabilidade única e exclusiva do governo brasileiro. Apesar da proximidade do governo estadunidense com a operação, o desembolso de todos os fundos estava nas mãos dos bancos brasileiros e agências governamentais. O grande acerto dos autores foi debruçar-se sobre os documentos, alguns revelados recentemente, do arquivo do Senado norte-americano, com o objetivo de traçar o caminho do dinheiro vindo dos EUA até os bancos brasileiros. 

O livro é uma obra jornalística completa, fruto de intensa apuração e investigação. O texto é envolvente, a história, desconhecida por muitos, é intrigante e foi esmiuçada de maneira brilhante ao longo das mais de 200 páginas. O leitor se revolta por conta do descaso do governo brasileiro com os extratores de borracha que contribuíram com a vitória dos Aliados. Além do número expressivo de mortos, os sobreviventes não foram remunerados como fora acordado. Os relatos dos personagens dessa história, como o senhor de 107 anos que ainda se perguntava quando receberia o dinheiro, enriquecem a narrativa e provam a magnitude da denúncia deste triste episódio da História.

Autor: Felipe Conte.

Foto: Felipe Conte.

Fonte: PUC-RS.