“A gente come pouco para sobrar”

PUC-RS
Como famílias de baixa renda ou sem condições financeiras conseguem se alimentar em meio às dificuldades

É grande o movimento na feira da Epatur, aos sábados, em Porto Alegre. Tem gente querendo vender. Tem gente querendo comprar. E muitos, muitos, querendo pegar o que ninguém quer: a sobra de frutas e legumes.

Crianças, adolescentes, jovens, adultos, brancos, negros e pardos. Circula todo o tipo de gente. Quem chama a atenção? De certa maneira todos. Em especial crianças de rua ou de renda extremamente baixa acompanhando seus pais e mães. Há os que podem comprar e os que não podem. Os que não podem circulam em busca dos alimentos que a população deixa de lado, considerados sem condições para a venda.

Há famílias descalças, com sede, com fome, com a roupa suja, com pouca roupa, sem dinheiro. Desde cedo aprendem que quem não tem chances e certas oportunidades passa por dificuldades e deve encontrar alguma forma para sobreviver, nem que seja com restos de alimentos. Um destes casos é a história de Patrícia Santos.

Patrícia é uma mulher de 33 anos, moradora da cidade de Viamão. Aos finais de semana aguarda pelas feiras no Largo Zumbi dos Palmares, na região central de Porto Alegre. Doméstica e mãe de dois filhos, uma das maneiras que esta mulher encontra para sobreviver é através de doações e da busca pelas sobras.

Recentemente perdeu o emprego. Há pelo menos dois anos a mulher se desloca de Viamão junto com as filhas, de oito e dez anos, atrás de alimentos. “Acho que não sou miserável, porque a gente tem o Bolsa Família. Na minha casa moram seis pessoas, por isso a gente vem catar comida aqui na feira todo sábado, até porque a Bolsa Família não ajuda todo mundo. Quando dá, viemos no domingo também. Pego tudo para durar até a próxima vez. A gente come pouco para poder sobrar”, relata a moça apressada em juntar os alimentos antes que o tempo acabe.

Sim, tem tempo. As feiras costumam começar por volta das sete e meia da manhã e encerram ao meio dia. Minutos antes do fim os feirantes começam a anunciar preços reduzidos e descontos atrativos. Mas não apenas isso. Minutos antes do fim, famílias como as da Patrícia se posicionam ao redor da feira, atrás dos comerciantes, na expectativa de que alguns não comprem para que eles possam resgatar.

Só em Porto Alegre existem aproximadamente 45 feiras, coordenadas pelas Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (SMIC), espalhadas por diversos locais da cidade. Elas se distinguem entre Feiras Modelo, que no total de 38 são divididas em sete grupos, onde são comercializados hortigranjeiros, carnes, derivados de leite, frios e embutidos; e Feiras Ecológicas, num total de sete, onde são oferecidos produtos diretamente dos produtores da área rural de Porto Alegre e do interior do Estado.

Em um destes pontos da cidade está Patrícia. Estão também muitas outras mulheres, crianças e famílias. Pessoas pobres que buscam algo simples na vida: se alimentar. O que para a maioria acaba se tornando banal, para estas famílias não é. Muitas famílias que têm condições financeiras costumam comprar e deixar alimentos apodrecerem, não gostamos e jogamos fora. Eles, não têm opção. Não existe o não gostar de determinada fruta ou legume. Existe a fome, a vontade de se alimentar, e isso é o que fala mais alto.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, Patrícia não demonstra tristeza e esboça um sorriso no rosto ao saber que pelo menos há uma opção, que para ela é a melhor encontrada. As mãos secas e os chinelos surrados mostram o quanto essa mulher batalha para poder alimentar sua família. Afinal, ela corre muito todo fim da feira. Corre procurando o máximo que pode. Ela conta que já fez amizade com os feirantes e acredita que se pode, também deve ajudá-los. “Eles me dão uma caixa e vou colocando o que sobra. Eu junto do lixo e algumas verduras eles me dão. Por isso ajudo eles colocando tudo o que precisa no caminhão que vai voltar para a prefeitura. Levo comida para minhas filhas, irmãos e mãe. Uma das meninas sempre vem comigo. Tem que saber se virar desde pequena, foi assim que eu aprendi”.

Mesmo assim, o desafio de encontrar comida não é tão simples nesses locais. Ao final de cada dia os alimentos que não foram vendidos são recolhidos por um caminhão da prefeitura e levados para crianças e instituições carentes. Alguns são distribuídos para essas famílias que se posicionam ao redor das bancas. Nelas, observam-se crianças com o olhar triste, famintas, pedindo, cortando as partes podres das frutas e comendo a outra metade. Normalmente são bananas, maçãs, mamão e abacaxi as frutas mais ofertadas, principalmente porque são frágeis e quando transportadas acabam ficando com cortes e machucados, dificultando a venda.

Maria da Graça, de 40 anos, moradora do Bairro Glória, é mais um caso. Também aparece acompanhada de crianças. Diferente de Patrícia, a moça conta que todos os dias vai à procura, não no mesmo local, porém preferencialmente nas localizadas no Centro e Zona Sul. Enquanto o marido trabalha no Centro da capital vendendo balas no com o filho de 14 anos, Maria trabalha com a filha, que se distrai com as outras crianças no momento em que a mãe resgata os alimentos.

“Quase sempre são as mesmas pessoas. A gente não gosta quando vem alguém que não é da área. Aqui já nos conhecem e é mais fácil a gente ganhar coisas. Falo pra Camilly ir comendo o que dá e depois a gente recolhe na caixa e coloca tudo na sacola para levar para casa e dividir com os outros”.

“A gente vive com o salário de 300 reais do meu marido.  O resto tenta dá um jeito. Meu filho trabalha com o pai e não quer estudar, mas quero que a minha guria esteja na escola e tenha a educação que nós não tivemos. Além de alimentos, catamos livros para ela poder levar para a escola e aprender”, complementa.

Segundo o vice-presidente da Associação das Feiras Modelo, Giovani Oliveira, só na feira da Epatur, por exemplo, são vendidas em média 100 toneladas de alimentos por dia. “Os feirantes estão classificados em 15 categorias. Na minha banca, onde vendo banana, o que sobre ou o que o cliente acha que está inadequado por algum defeito, eu doo. Chego a distribuir de 20 a 30 cachos de banana diariamente”, afirma.

Segundo pesquisa da FAO – a Agência da Organização das Nações Unidas que se dedica à Alimentação e à Agricultura, 1/3 dos alimentos produzidos no Brasil é desperdiçado. Sendo 45% de hortifrutigranjeiros. Sobre o desperdício causado nas feiras de Porto Alegre e sobre o público secundário que as frequenta, Oliveira completa: “ A gente ensina a pescar, mas não dá o peixe. Nós temos um combinado com o pessoal de cada feira. Essas pessoas que moram e trabalham na rua nos ajudam a varrer no final e nós distribuímos os alimentos. Dessa maneira, a gente tenta ajudar e evitar que o desperdício seja ainda maior”.  Segundo ele, as famílias chegam a encher de três a quatro caixas grandes de supermercado só com as doações.

Texto: Ana Paula Abreu
FONTE: Famecos/PUC-RS