A esperança é a última que some

PUC-RS
Nos últimos 13 anos, foram registrados mais de 82 mil casos de desaparecimento no Rio Grande do Sul, uma média de 16 registros por dia
Localizada à 474 quilômetros de Porto Alegre, a cidade de Três Passos tornou-se conhecida no Brasil inteiro pelo caso Bernardo Boldrini. O menino, à época com 11 anos de idade, desapareceu no dia 4 de abril de 2014. O corpo foi encontrado dez dias depois, enterrado em uma cova rasa em Frederico Westphalen, a 80 quilômetros de Três Passos. Entretanto, na mesma cidade, a população lembra até hoje de um caso anterior ao do menino Bernardo, que segue sem solução.

Eles não davam muita importância para o nosso problema”

“A polícia não deu tanta importância para o caso”, afirma Loreny Moraes, irmã de Cintia Luana Ribeiro Moraes. Na quarta-feira, dia 13 de julho de 2011, a jovem, na época com 14 anos e grávida de sete meses, saiu para se encontrar com o pai do bebê, um brasiguaio (agricultor brasileiro que migrou para o Paraguai). Desde então, nunca mais foi vista. A família, que hoje vive em Campo Novo (a 30 quilômetros de Três Passos), fez imediatamente o registro de desaparecimento. Nos primeiros anos, a mãe, Ivone de Moraes (hoje com 59 anos), ligava diariamente para a delegacia perguntando se havia novas pistas e informações, mas sempre lhe respondiam que não tinha nada novo. A última vez que a polícia procurou fazer contato com a família foi, de acordo com Loreny, “dois ou três anos atrás”.

Desde então, uma quantidade de teses e boatos foram levantados para tentar explicar o ocorrido. Todavia, o mistério persiste. Com o passar do tempo, a família recebeu muitos telefonemas anônimos de pessoas que diziam ter visto Cintia viva em algum lugar. “Meses atrás, nos ligaram falando que viram a minha irmã em algumas cidades da Argentina. Eu perguntava como eles sabiam disso, e a resposta era sempre a mesma: Um amigo de um conhecido me disse que viu, mas não posso dizer quem é. Sinceramente, não acredito nesses boatos”, disse Loreny. A família avisou os agentes da Polícia Civil, que foram para o local – a linha de fronteira fica a 50 quilômetros de Três Passos-, mas não conseguiram encontrar nada.

A Polícia Civil de Três Passos ouviu 62 pessoas e instaurou um inquérito policial que chegou a 600 páginas. O pai do bebê de Cintia, que supostamente teria sido o último a ter visto a garota, chegou a ser investigado. O brasiguaio tem 27 anos e tem família na cidade de Humaitá, vizinha a Três Passos. Em encontros anteriores ao desaparecimento da adolescente, o agricultor teria pedido para que ela abortasse a criança, de acordo com Loreny. Ele foi minuciosamente investigado, mas não foram encontradas provas de envolvimento no caso. Outros quatro amigos dele, que também são agricultores, foram investigados. Novamente, nada foi localizado.

As últimas palavras que Loreny ouviu da irmã foram: "Tô saindo". Foto: Arquivo Pessoal

Os anos seguintes foram escassos de informações. Não havia mais nenhum fato novo. Em maio do ano passado, para evitar que o sumiço de Cintia caísse em esquecimento e ficasse sem solução, a família decidiu contratar uma investigação particular, que verificou se havia o registro de nascimento do bebê de Cintia em países vizinhos (Argentina e Uruguai) e descartou o boato de que a adolescente estaria em Buenos Aires. Segundo a empresa, há indícios de que Cintia está morta. Todavia, o grande empecilho é a ausência de provas concretas para provar as suspeitas. Ao contrário da mãe, Loreny não acredita mais na possibilidade da irmã estar viva. Ela mostra-se resignada com a dor que lhe acompanha há quase cinco anos e a seguirá pelo resto da vida. A mãe ainda guarda o enxoval do bebê em casa, esperando o retorno da filha e do primeiro neto.

Vila Esperança

Desde o dia 15 de maio de 2012 (uma terça-feira), a presença de Valdenice Rodrigues Telles (de 37 anos) na delegacia de polícia Montenegro, a 61 quilômetros da Capital, é diária. A angústia e o desespero, somadas a esperança de encontrar alguma pista ou indício que possam levar a reencontrar a filha, desaparecida há mais de quatro anos, a motivam a continuar visitando o local. Mesmo diante da negativa de respostas animadoras no caso até hoje, Valdenice não perde a fé e mantém a mesma expectativa, desde o primeiro dia do sumiço da filha, quanto ao desfecho positivo do caso.

Andressa Rodrigues Telles, à época com 14 anos, saiu de casa, localizada na Vila Esperança, às seis e meia da tarde para se encontrar com suas amigas. Nunca mais voltou. “Quando ela demorou a retornar para casa, já imaginei que o pior tinha acontecido. Mas ainda tenho certeza que vamos encontrá-la”, disse Valdenice. Após inúmeras ligações para o celular de Andressa, nenhuma delas atendida, a mãe telefonou para o Conselho Tutelar. Logo em seguida, ela foi encaminhada para a delegacia de Polícia, onde fez o registro de desaparecimento da filha.

Andressa foi vista pela última vez pelas amigas na garupa de uma moto. Foto: Arquivo pessoal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A investigação é cercada de mistérios. A principal suspeita de Valdenice é de que Andressa tenha sido levada por um rapaz que a namorava naquela época. O homem, que era mais velho, não era visto com bons olhos pela mãe. O instinto não falhou: Anos depois, ele foi preso por tráfico de drogas. O fato de sua filha saber muito sobre o histórico do então namorado faz Valdenice acreditar que ele seja o responsável pelo desaparecimento, como forma de “silenciá-la”. Além disso, segundo relato das amigas que estavam junto com ela no começo daquela noite de maio, Andressa se despediu e foi vista pela última vez na garupa de uma moto. Entretanto, mesmo com o rapaz preso, a Polícia nunca conseguiu recolher nenhuma prova sobre o paradeiro de Andressa.

Em fevereiro de 2016, Valdenice correu para atender o telefone com a mesma esperança de sempre. Era uma ligação anônima. Uma pista. Segundo a ligação, sua filha estava na cidade de Maravilha, Oeste de Santa Catarina, distante 467 quilômetros (ou seis horas e meia, de carro) de Montenegro. Após contato com a Polícia, os ânimos para as investigações voltaram. Infelizmente, a Polícia de Santa Catarina não encontrou nada que provasse a presença de Andressa na cidade. Entre vários telefonemas anônimos, pistas e idas à delegacia, Valdenice não se desanima, mesmo com todo o tempo que se passou. A esperança de encontrar a jovem que saiu de casa no fim da tarde do dia 15 de maio de 2012 usando casaco lilás, calça jeans e tênis branco, ainda reside na casa da Vila Esperança.

“A rebeldia da adolescência e a busca de aventura”

De dentro de sua sala, a Delegada Andréa Magna enfrenta diariamente as teias dos casos de desaparecimento de menores de idade na capital. O DECA (Departamento Estadual da Criança e do Adolescente) possui um setor específico para desaparecidos, contando com dois policiais fixos: “Dependendo do caso, o setor recebe auxílio de toda delegacia. A gente procura fazer um trabalho integrado, se auxiliando de acordo com a demanda”, explicou.

Cintia é um dos 2,3 mil casos não solucionados de desaparecimento registrados entre 2003 e 2012. Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com o Departamento Estadual da Criança e do Adolescente (DECA), foram registrados 408 desaparecimentos de menores nos primeiros quatro meses do ano. 286 já foram encontrados. A Polícia não arrisca informar o número verdadeiro de crianças desaparecidas por razões simples: Em muitos casos, as famílias encontram as crianças, mas não registram o reaparecimento. Com isso, O DECA continua trabalhando nesses casos e, quando se deparam nessas situações, apenas atualizam os números, prejudicando o trabalho dos agentes. Em outros, os pais estão em disputa judicial de guarda compartilhada. “Às vezes, o pai ou mãe não entrega a criança no dia combinado ou viaja para outro lugar sem avisar, daí a criança é registrada como desaparecida, mas ela não está”, contou Andréa.

Para a Delegada, a palavra “desaparecidos” carrega um peso maior e inexistente quando se trata de menores de idade: “O que nós temos é um grande número de adolescentes que fogem de casa por inúmeros fatores, como rebeldia da adolescência, a busca de aventura, por querer ir numa festa ou encontrar o namorado. Não é propriamente um caso de desaparecimento, é uma fuga, na verdade”, afirmou.

“Se não forem feitas delegacias de tráfico humano, a nova lei será inútil”

Os casos de Vivian e Andressa são apenas duas das 66.467 ocorrências de desaparecimento contabilizadas entre 2003 e 2012, de acordo com os dados fornecidos pela Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul. E podem ser muito mais. Segundo o ex-deputado Aldacir Oliboni (PT-RS), autor da Política Estadual de Pessoas Desaparecidas (Leis n° 14.682 e 14.683), sancionadas pelo governador José Ivo Sartori no dia 22 de janeiro de 2015, mas ainda não regulamentadas, muitas pessoas não denunciam e não fazem o registro de desaparecimento por desconhecimento dos procedimentos a serem realizados nas situações de sumiço, abandono familiar e violência doméstica, além do medo das famílias de sofrer represálias, principalmente dos aliciadores de crianças. “Muitos traficantes pagam para famílias em situação de vulnerabilidade social para que não falem nada. Conheço uma história de uma mãe que teve as duas filhas sequestradas.  Dias depois, as meninas ligaram para mãe, dizendo que ela ‘não deveria falar nem fazer nada’, dando a entender que a situação podia ficar pior para a mãe, que podia sobrar para ela. ”, contou, com indignação.

As duas leis foram aprovadas pela Assembleia Legislativa em dezembro de 2014 e tem relação com a Frente Parlamentar em Defesa das Pessoas Desaparecidas, também criada pelo ex-deputado, em março de 2013. A lei n° 14.682 prevê, entre outras coisas, a criação do Cadastro Único de Pessoas Desaparecidas no Estado, garante aos familiares o acesso aos autos da investigação, institui a criação de delegacias e/ou serviços especializados. A Lei n° 14.683 prevê que sejam divulgados dados como nome, foto, idade, local e data da ocorrência (desde que tenham a autorização por escrito dos familiares) e também procedimentos a serem realizados para auxiliar nas buscas.

Dados da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul apontam que o Estado possui 28 das 241 rotas utilizadas pelas quadrilhas de tráfico de pessoas no país. “Os principais caminhos são na Capital e Grande Porto Alegre, na Serra (Caxias do Sul) e Fronteira. Existem diversos casos de prostituição de menores com caminheiros em Uruguaiana. Muitas meninas vão para a fronteira e não voltam nunca mais. Se não forem feitas delegacias de combate ao tráfico humano, a lei será inútil”, disparou Oliboni. Para o ex-deputado, a melhor estratégia para enfrentar e tentar solucionar o problema é a prevenção, a partir da conscientização da sociedade, dos perigos existentes e a inclusão social de famílias que não tem acesso a informação.

Rebeldia, busca pela aventura, sequestro, violência familiar, tráfico humano, prostituição. Motivos não faltam para que crianças e adolescentes sumam diariamente. O resultado é o mesmo: Angústia, desespero, indignação e tristeza para os familiares. A falta de pistas e de condições financeiras da família em procurar por conta própria são os maiores empecilhos para essas pessoas. Diante da falta de evidências, por que Valdenice e Ivone insistem em acreditar que Andressa e Cintia voltarão um dia? Porque a esperança é a última que some.

Texto: Eduardo Comerlato e Leonardo Sá
FONTE: Famecos/PUC-RS