“A cada negro que morre, um tanto de nós morre também”, diz ativista sobre casos recentes de João Pedro e George Floyd

Em um dos países onde a força policial mais mata pessoas negras, movimentos antirracistas, como a marcha das mulheres negras e o coletivo africásper, lutam por justiça

“Não consigo respirar.” Essas foram as últimas palavras de George Floyd, que foi a óbito no dia 25 de maio, após ser imobilizado por um policial ajoelhado em seu pescoço. Também foram as últimas palavras, repetidas 11 vezes, de Eric Garner. No dia 17 de Julho de 2014, faleceu nas mãos de um policial após ser abordado sob a suspeita de vender cigarros e estrangulado pela polícia nova-iorquina. São essas palavras que, agora, estampam cartazes e são bradadas pelas vozes das multidões em mobilizações ao redor do mundo acerca da pauta da violência policial contra a população negra.

Apesar de as manifestações, que suplicam por justiça em relação a assassinatos como esses, terem ganhado proeminência na última semana, dando destaque ao movimento Black Lives Matter (vidas negras importam), essa luta não é inédita. “Antes de George Floyd, dois jovens negros no Brasil também foram mortos quase que da mesma forma por seguranças de supermercados, um no Rio e outro em São Paulo. Antes deles, várias mortes aconteceram”, afirma Marli Aguiar, autora e integrante da Marcha das Mulheres Negras e Marcha Mundial das Mulheres.

A ativista Marli Aguiar relembra casos revoltantes em que a polícia brasileira matou jovens negros
Reprodução/Instagram

Segundo pesquisas realizadas pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil teve, em 2018, 6.220 mortos pela agressão da polícia civil e militar. Dentre as vítimas, 75,4% eram negras. Essas estatísticas refletem uma conjuntura alarmante, na qual a cada 23 minutos morre um jovem negro no País, conforme apontam dados da Anistia Internacional. “80 tiros a um carro com família, incluindo crianças. 111 tiros a um carro com cinco jovens que iriam festejar o primeiro salário recebido após um mês de trabalho”, exemplifica Marli, citando casos dessa violência.

Sem conter a frustração, ela continua: “Ágata, 8 anos, levou um tiro pelas costas em um transporte público. Kauê Ribeiro, 12 anos, foi baleado na cabeça enquanto subia a rua para casa. Kauã Rozário, 11 anos, estava andando de bicicleta e foi morto com um tiro. Kauan Peixoto, 12 anos, viu a polícia na porta da lanchonete, mas não correu [e morreu depois de levar três tiros]. Jennifer Silene, 11 anos, baleada na porta de sua casa. Luana Barbosa, morta na frente do filho de 14 anos, espancada por policiais no interior de São Paulo. Amarildo, que ninguém mais ouve falar, a não ser sua esposa, amigos e familiares desesperados. Cláudia, arrastada no caminhão da polícia pelas ruas da cidade. Poderia seguir aqui escrevendo nomes e fatos. Isso sem contar Marielle e tantos outros corpos negros e indígenas mortos pela covid-19”.

MARCHA DAS MULHERES NEGRAS

Fundada em 2015, a Marcha é um coletivo composto por mulheres pretas de várias idades, regiões e seguimentos, segundo Marli. “Realizamos ações na cidade de São Paulo e em outras cidades com pautas relacionadas à nossa realidade. O enfoque principal é o racismo, cotidiano e estrutural”, explica. Além disso, advogam “pela dignidade, educação, trabalho, aposentadoria e saúde. Pelo combate ao feminicídio, à violência contra LGBTQI, à mortalidade materna, à violência obstétrica e ao racismo religioso e ambiental.” O movimento, desde abril de 2016, dedica-se também a preservar a memória de Luana Barbosa e a punir seus assassinos. “Em nenhum momento deixamos de homenagear essas mulheres e crianças e de perguntar: Quem matou? Quem mandou matar? E exigir justiça para, pelo menos, acalmar o coração e a alma dessas famílias”, diz.

“Lutamos pela vida, pelo bem viver. Essa sempre foi nossa pauta como mulheres negras. Lutamos pelo não encarceramento em massa de nossa população”, completa Marli. Assim, casos como o de George Floyd, João Pedro e tantos outros impactam profundamente a militância. “Somos diretamente povo deste mesmo povo, e a cada negro que morre, um tanto de nós morre também. Nos indigna e nos revolta como movimento e como povo”.

A ativista também constata que quando se trata da mobilização nacional em relação a casos como os citados acima, existe no Brasil “uma naturalização do genocídio e do encarceramento da população negra e indígena.” A pouca repercussão midiática, tanto nacional quanto internacionalmente é proveniente, principalmente, “da invisibilidade do racismo e da afirmação de que nossas vidas não importam, apesar de gritamos todos os dias que sim, vidas negras importam!”, manifesta.

ANTIRRACISMO E BRANQUITUDE 

Sobre a cobrança em redes sociais, exigindo posicionamentos e ações mais vigorosas por parte dos grupos oprimidos e sobre a existência de brancos na luta antirracista, ela questiona: “Onde estavam ou estão vocês, minha cara gente branca, que dizem apoiar nossas lutas? A nossa morte, o nosso corpo, é muito naturalizado. Não é que nós não lutamos”.

“Todo dia isso acontece aqui no Brasil. Nós, como movimento negro, temos falado sobre isso. A minha pergunta é: porque os brancos não saem às ruas para gritar contra o racismo e dizerem que, realmente, vidas negras importam?”, indaga, ainda sobre a branquitude.

“Acredito que os brancos não se importam muito com as nossas pautas. São poucos os que realmente acham que o racismo também é uma pauta deles”, diz Silchya Rodrigues, presidenta do AfriCásper, coletivo negro da Faculdade Cásper Líbero. “O Brasil está um caos, são sempre várias notícias de aumento de mortes pelo coronavírus, e as nossas pautas já são inferiorizadas pela mídia. Nesse cenário, com certeza elas vão ser mais ainda”, diz Silchya.

A presidenta do coletivo AfriCásper, Silchya Rodrigues, diz que os movimentos só ganham força quando os brancos aderem a eles
Reprodução/Instagram

Neste momento, é possível ver a força dos movimentos antirracistas, tanto nas ruas quanto nas redes sociais. Segundo a casperiana, “o genocídio da população negra é feito pelo próprio órgão de segurança, e o sistema é totalmente falho e destrói cada dia mais a vida dessa população. Quando os brancos começam a se importar com as coisas, a gente vê que os movimentos ganham bastante força, porque são eles que detêm o poder”. Apesar das lutas diárias, os crimes de racismo continuam ocorrendo. “A gente faz bastante esforço para que não ocorra, e continua ocorrendo”, completa a presidenta.

HISTÓRIA E EDUCAÇÃO ANTIRRACISTAS 

Ao ser questionada sobre a história brasileira e o apagamento da resistência da população negra no decorrer dos últimos séculos, Marli discorre: “Nas escolas, quando foi que ouvimos positivamente sobre nossa história e a contribuição do povo negro no Brasil? Quando durante nossos estudos aprendemos sobre o Quilombo dos Palmares e tantos outros, sobre a Revoltas dos Malês, da Chibata, das resistências dos povos indígenas, que sobreviveram até os dias de hoje, sofrendo constante investidas de extermínio? O que aprendemos sempre é que fomos um povo que aceitou docilmente a escravização. Então, a nossa luta é mais árdua, pois estamos no processo de nos reconhecermos como gente, nos aceitarmos e sermos aceitos nessa sociedade que nos nega o tempo todo.”

A ativista está convicta de que “sempre haverá lutas e resistência, mesmo com tudo isso que vivemos e sendo impedidos de nos organizarmos”. Ela completa: “Resistimos, reivindicamos, nos formamos e informamos. Nossa luta é diária, constante, minuto a minuto, pela vida”.

Autoras: Isabella Gemignani e Júlia Candido.

Fonte: Cásper Líbero.