A autoridade que teme a imprensa

Lima Barreto conta a jornada de Isaías Caminha na luta racial

Recordações do Escrivão Isaías Caminha de Lima Barreto; editora Escala; 1909-2005; 176 páginas. R$10,00.

 Assim como Isaías Caminha, personagem principal de sua obra, Lima Barreto passou parte de sua vida, se não toda, no Rio de Janeiro. Seus pais eram mulatos, nascidos livres e instruídos. De certa forma, o autor conta um pouco de si durante a autobiografia do escrivão. 

Em 176 páginas, encontra-se a trajetória de um jovem negro que, seguindo as instruções de seu pai, segue em busca de seus sonhos deixando sua cidade natal e indo atrás de um recomeço na cidade do Rio de Janeiro. Em um café, ainda durante o caminho, Isaías nota a grande diferença de tratamento dos atendentes entre ele e um homem branco com a mesma idade. Ao chegar no Rio, já triste com o acontecimento, depara-se com a desigualdade social e racial de forma ainda mais evidente e agressiva. Com uma linguagem simplista, o autor mostra a realidade do país, onde as pessoas possuem o forte hábito de viver pelas aparências, criticando não só a sociedade, mas também a imprensa. O próprio Isaías sente a necessidade de se formar em medicina, para ter o pronome de tratamento “doutor” em seu nome para reafirmar isso. 

No processo de conhecer o Rio de Janeiro, Isaías decide, então, ir ao encontro do Deputado Castro – a quem havia sido recomendado. A busca de um emprego que lhe garantisse a sustentabilidade, enquanto seguisse seus estudos, foi um processo difícil, principalmente por causa de sua cor.  Nessa época, Isaías entrou em contato com O Globo, onde passa a trabalhar como contínuo. Lá começa a se sentir seguro na profissão, embora soubesse que nunca seria um doutor e o racismo sempre estaria presente no seu cotidiano. Decide então, seguir apenas com o jornal. 

Com o livro, vemos que tanto os olhares como as ações preconceituosas da sociedade eram e continuam frequentes. Em sequência, o autor mostra a realidade da imprensa; o sistema corrupto do qual ela faz parte; a tirania e a hipocrisia no ambiente de trabalho; a competição entre os redatores mostra o funcionamento real de uma redação, sem romantismos. Na trama, quando ocorre grande acontecimento marcado pelo suicídio de Floc – redator do O Globo, responsável pela seção de artes e literatura – a grande imprensa de certa forma encoberta o caso. Cansado de viver nesse ambiente, Isaías Caminha resolve voltar para o interior, fechando assim um ciclo.

De forma bem clara, a obra apresenta situações em que mostram como o Brasil, embora tenha abolido a escravidão, continua com registros racistas em vários âmbitos incluindo as grandes mídias.

Autor: Fabrine Bartz.

Foto: Bruna Tkatch.

Fonte: PUC-RS.