“A arte serve para colorir aqui dentro” – a criação do Museu do Isolamento Brasileiro

O MUSEU NO INSTAGRAM BUSCA DAR VISIBILIDADE A TODOS OS ARTISTAS QUE NÃO TEM ONDE MOSTRAR SUAS ARTES

Durante a pandemia muitos artistas buscaram se expressar de uma forma ou de outra. Com isso em mente, a paulistana Luiza Adas, de 23 anos, fundou o Museu do Isolamento Brasileiro. O projeto é um perfil no instagram que divulga obras de artistas independentes durante a pandemia. A iniciativa começou no dia 30 de abril e já conta com 51,9 mil seguidores.

A sua criadora tenta explicar esse sucesso: “Eu acho que as pessoas estão precisando de um respiro em meio a tanto caos e tantas informações que nós estamos sendo bombardeados. Parece que o mundo está borbulhando. Eu acho que a arte serve um pouco para fomentar tudo isso, mas ela também ajuda a gente a dar um respiro, uma acalmada”.

“Nesse momento em que a gente não pode se relacionar com o que está lá fora, ela serve para colorir aqui dentro”, diz Luiza sobre a arte na pandemia.

AS OBRAS

O envio das artes é feito através de um formulário disponível no perfil do instagram do museu. Segundo Luiza, o processo de curadoria não é algo fechado, apesar de existirem critérios básicos, como a qualidade da imagem e a veracidade do artista. “Eu tento analisar quais são os temas que estão sendo mais debatidos, o que é relevante para aquele dia. Porque o principal objetivo do Museu do Isolamento é dar visibilidade para os artistas, mas também dar voz a movimentos e pessoas que precisam”.

Foi com esse intuito que ela divulgou uma obra de Thais Steinmuller que retrata o tema da violência policial contra a população negra. “[A minha obra] surgiu vendo essas notícias e conversando com meus amigos sobre tudo que está acontecendo. Foi logo depois que o João Pedro foi morto, aí subiu uma revolta e uma vontade de colocar isso em algum lugar”, diz Thais. No dia 18 de maio, João Pedro Mattos Pinto, 14 anos, morreu durante uma operação policial em São Gonçalo, região metropolitana Rio de Janeiro.

A imagem da artista já tem mais de 30 mil compartilhamentos, e foi repostada pela cantora Manu Gavassi. Thais conta que não esperava tamanha repercussão. “Foi muito inesperado, primeiro eu fiquei feliz que as pessoas estavam passando essa mensagem adiante, mas depois eu fiquei preocupada com alguém estar distorcendo isso. Você acaba perdendo o controle da sua arte, mas que bom que tanta gente se identificou”, afirma.

Após a publicação, o perfil no instagram de Thais, Rabiscado Por Mim, ganhou mais de 6 mil seguidores. Para a criadora do Museu do Isolamento, Luiza, essa é a parte mais gratificante do seu trabalho. “O mais prazeroso disso tudo é ver de fato esses artistas ganhando tanta visibilidade a partir desse movimento que a gente criou. É isso que faz o meu olho brilhar e é isso que faz isso continuar valendo a pena”.

O PROJETO

A idealizadora do Museu do Isolamento já possui outro perfil sobre arte, o Florindo Linhas. Também no instagram, toda semana compartilhava dicas da programação artística na cidade de São Paulo. “O Florindo Linhas estava indo muito bem esse ano, aí chegou a pandemia e eu falei: ‘Putz, o que vai ser da minha vida, agora que finalmente estava engrenando meu projeto?’” lembra.

Pensando no que fazer para contornar essa situação, Luiza deparou-se com o instagram Covid Art Museum (Museu de Arte Covid). Elaborado nos Estados Unidos, o perfil publica obras feitas em função da crise do novo coronavírus. Inspirada por essa iniciativa, ela decidiu criar o Museu do Isolamento. “Eu queria criar esse ambiente em que o artista pudesse divulgar sua arte e não necessariamente só produzir algo que tenha a ver com a pandemia que a gente está vivendo, mas para dar visibilidade para o artista e mostrar o trabalho dele da maneira como é”, explica.

Sobre o futuro do perfil após o fim da quarentena, Luiza confirma que dará continuidade ao projeto. “Quando eu penso em Museu do Isolamento, eu penso em artistas que não conseguem expor os seus trabalhos nesses espaços de museus e galerias de arte tradicionais. Então, sim, ele vai continuar como um espaço de exposição de artistas que buscam essa visibilidade para expor seus trabalhos”.

Autora: Julia Queiroz.

Fonte: Cásper Líbero.