“A Aids saiu de moda”, diz mãe de Cazuza à ESQUINAS

Lucinha Araújo, presidente da sociedade viva Cazuza, que completa 30 anos, é considerada uma das maiores ativistas do combate ao HIV no Brasil.

Lucinha Araújo, 84 anos, é mãe do cantor Cazuza, que morreu em 1990, aos 32 anos, por um choque séptico causado pela Aids. No mesmo ano, os pais do artista, junto com amigos e médicos, criaram a ONG Sociedade Viva Cazuza, no Rio de Janeiro, com o intuito de apoiar pacientes com a doença, muitas vezes abandonados por suas famílias.

A associação completou 30 anos de funcionamento na assistência e prevenção à Aids, mas, segundo Lucinha, teve que fazer “um plano B” devido à pandemia. Por fazer parte do grupo de risco, a presidente não vai à Sociedade há quatro meses. A gerente, que tem 60 anos, também está trabalhando remotamente.

Para manter os funcionários, a solução foi contratar um motorista de van que leva e busca todos para não precisarem utilizar transporte público. “Assim não tem perigo de contágio, é o mínimo que a gente pode fazer. Está funcionando bem, graças a Deus não houve problema até hoje”, explica Lucinha.

A van também é usada para levar as crianças que moram na casa para passear. Como não podem sair, nos finais de semana os supervisores fazem Rio-Niterói e elas vão passear nas praias. Tudo sem sair do carro. “A gente leva lanche e as crianças fazem um piquenique dentro do carro. Coitados, eles ficam desesperados sem sair de casa. Estão acostumados a passear, ir ao teatro e cinema. Mas eles se adaptaram direitinho e daqui a pouco está acabando, se Deus quiser”, diz.

A LUTA CONTRA O HIV NO BRASIL

Lucinha diz ser cética em relação a notícias como a do paciente que conviveu com o HIV por pelo menos sete anos e está há 17 meses sem sinais do vírus. “Torço para que seja verdade, mas foram mais de 30 pessoas testadas e só um deu resultado, então não sei”. A médica que trata as crianças da ONG, que é a mesma desde a abertura, tem o mesmo sentimento. “É uma praga que não termina nunca, já está aí há 40 anos e até hoje nada, a não ser os remédios novos. As pessoas, hoje em dia, têm uma vida mais longa e menos dolorosa. Mas, de qualquer jeito, a gente reza para que exista uma cura o mais rápido possível”, afirma a presidente da Viva Cazuza.

Segundo ela, o governo brasileiro atualmente “não faz absolutamente nada” em relação à doença. “A parte de Aids do Ministério da Saúde está fechada. Mandaram todo mundo embora. A Aids saiu de moda, hoje em dia não se fala mais em HIV. As ONGs fecharam quase todas. Eu só não fechei porque eu vivo dos direitos autorais do Cazuza”, aponta.

POR QUE A AIDS SAIU DE MODA? 

Lucinha diz que isso pode se dar porque acredita que as mães se cuidam mais quando engravidam e, portanto, o número de crianças que nascem infectadas diminuiu. “Hoje em dia, 50% das minhas crianças não tem HIV, eu passei a recolher crianças abandonadas também”, conta. A maior incidência, atualmente, é entre os jovens. “Segundo a OMS a maioria está entre 17 e 26 anos. E os velhos voltaram a se infectar porque transam sem camisinha”, explica.

A presidente também opina que os novos remédios têm efeitos paradoxais: “Ao mesmo tempo em que a aparência das pessoas fica boa, as pessoas não usam mais camisinha”. “Pensam que vão à farmácia e dizem ‘me dá um coquetel para a Aids’”, completa Lucinha, explicando que, na verdade, o médico receita, de acordo com os exames do paciente, remédios específicos.

CONSCIENTIZAÇÃO E PREVENÇÃO

Lucinha afirma que falta informação. “Antigamente eu fazia campanhas que saíam na televisão. Hoje em dia nem tem espaço na TV para fazer uma campanha sobre Aids”, lamenta.

Ela considera que o grande legado deixado por Cazuza foi ter se declarado soropositivo. “O legado dele não foi só de belas canções, foi também de coragem. Ajudou milhões de soropositivos a mostrarem suas caras, porque vivam isolados, nos seus cantos, com medo das pessoas fugirem”, finaliza a mãe coruja que diz gostar de todas as músicas do filho. Hoje em dia, principalmente Um trem para as estrelas.

Sociedade Viva Cazuza aceita doações que podem ser feitas pelo seu site.

Autor: Vinícius Novais.

Fonte: Cásper Líbero.