53% dos brasileiros apresentam piora na saúde mental durante a pandemia, revela estudo

País ocupa o 5° lugar onde as pessoas tiveram mais problemas psicológicos, de acordo com o Instituto Ipsos.

Com as mudanças geradas pelo surgimento do novo coronavírus, hábitos que favoreciam o relaxamento mental, como reuniões entre amigos e familiares, foram substituídos pela apreensão gerada por uma doença com fácil transmissão e risco de mortalidade. Na busca por ilustrar um panorama global das condições psicológicas ao redor do mundo, o Fórum Econômico Mundial encomendou um estudo realizado pelo Instituto Ipsos, empresa voltada à área da pesquisa, com a participação de aproximadamente mil pessoas de 30 países, entrevistadas de 19 de fevereiro a 5 de março de 2021. 

O resultado revelou que 53% dos brasileiros tiveram piora na saúde mental desde o início da pandemia, em 2020. Cerca de 11% passaram a apresentar problemas graves, como depressão e crises de ansiedade mais frequentes, sendo o segundo maior índice de pessoas com esses diagnósticos entre todos os países participantes do estudo. Os mesmos dados indicam que a média global dos entrevistados com alterações psicológicas negativas desde o início de 2021 é de 27%, enquanto no Brasil, o número é de 33%.  

A recepcionista Milena Lapola, 21, moradora de São Bernardo, afirma ter enfrentado crises de ansiedade desde a infância. Apesar de ter problemas psicológicos de longa data, há somente um ano desenvolveu quadro de depressão e passou a ter crises de pânico. “As mudanças causadas pela pandemia aumentaram minha ansiedade e toda a situação no país só causa mais aflição.” 

De acordo com a jovem, outro aspecto decisivo na piora da saúde mental foi a pausa no seu tratamento psicológico em decorrência da situação financeira. “Tive de escolher entre comprar remédios para os problemas de saúde em geral e fazer terapia, que acabou sendo prejudicada nesse momento de dificuldade econômica”. 

Entre os fatores que a causam maiores angústias desde 2020, a recepcionista destaca a dificuldade em encontrar um equilíbrio saudável entre o consumo de informações sobre a epidemia no Brasil e os pensamentos gerados a cada notícia. “Ao mesmo tempo que não me exponho, por ter asma e ser parte do grupo de risco, ficar reclusa em casa me faz pensar demais nesse assunto, causando esgotamento mental.” 

No caso da estudante de jornalismo Jady Libarino, 21, moradora de São Bernardo, a mudança para o ensino à distância causou um grande impacto. “No primeiro semestre online fiquei animada, pois obtive minhas melhores notas. Apesar disso, com o passar do tempo, acabei ficando desmotivada e tendo aumento nas crises de ansiedade”, diz. A jovem conta que o final de 2020 foi o pior rendimento em toda sua graduação. 

Segundo a estudante, a convivência diária com o avô gerou bastante medo da transmissão do coronavírus, que somado à ansiedade, causava grande angústia. Como resultado, ela começou a apresentar distúrbio alimentar, buscando afastar com a comida os pensamentos que a fizessem mal. “Comer compulsivamente passou a ser um refúgio, fazendo com que engordasse quatro quilos em menos de dois meses.” 

Essa apreensão é comum em muitas famílias que aguardam pela vacina e possuem membros com comorbidades sensíveis à Covid-19. A psicóloga Angelica Capelari indica qual deve ser a postura a ser tomada em casos semelhantes. “É preciso trabalhar com o entendimento e exercício daquilo que está ou não sob controle da pessoa.” 

Principais motivos do declínio na saúde mental

De acordo com Angelica, houve aumento na demanda por psicólogos e algumas das razões para essa demanda foram as mudanças geradas pela pandemia. “Assim como depressão e ansiedade dos mais variados tipos, é comum receber casais com dificuldades no relacionamento e pessoas com problemas familiares, devido ao convívio intenso.” 

Outro aspecto preocupante são as sequelas projetadas para um período no futuro próximo em que a situação pandêmica estiver controlada. A psicóloga pontua que além das pessoas ansiosas e depressivas em razão do luto, poderá haver dificuldade de interação e retorno ao mundo presencial.  

A psicóloga afirma que uma possibilidade para o tratamento durante o isolamento social são as sessões de terapia online, que na visão da especialista têm funcionado na maior parte dos casos. “O atendimento à distância só é dificultado no caso das crianças pequenas, pessoas com dificuldade de concentração e quando o paciente não possui a privacidade adequada para conversar.” 

Já para a psiquiatra Ivete Gattás, as alterações causadas pela pandemia no modo de atender os pacientes têm impactado negativamente. “Julgo haver perda na efetividade do tratamento, pois principalmente no caso da psiquiatria o olho no olho faz toda a diferença.” Segundo a psiquiatra, a busca por medicamentos, especialmente voltados para o tratamento da ansiedade e da má qualidade do sono, tem aumentado durante as sessões. 

Além da dificuldade para dormir e da expectativa pelo retorno ao convívio social, a passagem do trabalho para o ambiente doméstico também é capaz de prejudicar gravemente a saúde mental, aponta Ivete. “O home office aumentou a ansiedade, o estresse e o tempo de dedicação ao trabalho, o que dificulta principalmente as tarefas dos pais, que ainda precisam atender as demandas dos filhos nesse mesmo ambiente.” 

Autor: Mateus Bertole.

Fonte: Metodista.