40ª Mostra Internacional de SP: Morte em Sarajevo

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Este filme faz parte da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

1914, Sarajevo. Desfilando em carro aberto pelas ruas da capital bósnia, o arquiduque da Áustria, Francisco Ferdinando, foi morto por um jovem chamado Gavrilo Princip, membro de um grupo nacionalista sérvio denominado Mão Negra. O resultado do atentado não foi apenas a morte do herdeiro do Império Áustro-Húngaro e sua esposa, Sofia, mas também a eclosão do que seria conhecido como a Primeira Guerra Mundial, um longo combate que durou 4 anos, deixou um saldo de 9 milhões de mortos e nações totalmente destruídas.

2014, Sarajevo. Em cerimônia pelo centenário da famigerada guerra, o hotel Europa, o mais importante estabelecimento de toda a cidade, receberá a vinda de figuras diplomáticas e outras celebridades de toda a União Europeia; enquanto a gerência do hotel se esforça para que tudo fique na mais perfeita ordem, dentro do dele os funcionários se preparam para entrar em greve. É esse o cenário de Morte em Sarajevo (Smrt u Sarajevu, 2016), de Danis Tanovic, filme que se propõe a estabelecer um diálogo com o passado e evidenciar que o cenário político e social da Bósnia daqueles tempos não é assim tão diferente dos dias de hoje.

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Logo no início do filme somos apresentados à gravação de um programa de entrevistas sobre o atentado: discute-se se Gavrilo foi um terrorista ou um herói. Os diferentes entrevistados expõem opiniões discrepantes sobre a natureza do jovem e seu papel: enquanto muitos o veem como um rebelde que lutou contra uma potência estrangeira (o país havia sido entregue ao domínio do Império Austro-Húngaro com base num acordo político), outros o enxergam como um jovem fanático. Nesses diálogos expositivos, que funcionam um pouco como aula de história (talvez para nós, brasileiros, um tanto confusa), é evidenciado um importante aspecto da sociedade bósnia: o dualismo. O país é dividido em duas regiões políticas autônomas: A Bósnia Herzegovina e a República Sérvia (não o país Sérvia), e habitado por diversas etnias que, nas palavras de uma personagem, são ensinadas a odiar umas às outras desde a infância. O que fica é a impressão de que o país é um caldeirão efervescente, bastando uma única faísca para se por tudo pelos ares.

É muito interessante a maneira com que Tanovic constrói sua metáfora. O hotel Europa (a cada momento do filme este nome nos fica mais sugestivo) é o palco em que as várias personagens vão construindo o ambiente caótico em que tudo parece estar prestes a dar errado. O aspecto mais positivo do filme é talvez a forma com que todas essas diferentes figuras que formam o elenco se entrelaçam no meio do filme. A passagem de uma personagem à outra é bem natural e tem um timing excelente. A câmera de Tanovic vai acompanhando essas diferentes figuras pelos labirínticos corredores do hotel, compondo, aos poucos, a história maior, a releitura.

Se em 1914 a potência estrangeira invasora, o inimigo em comum que vez ou outra ressurge fazendo o povo bósnio, tão desunido, se aproximar, era a figura representada por Francisco Ferdinando, quem seria a de 2014? Um dos melhores personagens do filme (sobre o qual é melhor não falar muito para não estragar a surpresa) apresenta a resposta: o Inimigo em comum é invisível, circula por aí com seus carros blindados, mas de longe afeta a economia e a política do país. Qualquer semelhança com a União Europeia é mera coincidência.

Em um ano em que a história parece estar se repetindo em diversos países, com situações que já julgávamos ultrapassadas retornando – como o surgimento de partidos ultraconservadores, bem ao modo dos próprios fascistas – Morte em Sarajevo é uma leitura que vem a reforçar a teoria de que a história percorre movimentos cíclicos. Ou vem para mostrar que na realidade nada mudou, e a maior loucura foi ter acreditado na mentira de que havíamos nos tornado diferentes.

Confira o trailer:

por Pedro Graminha

FONTE: Jornalismo Júnior/USP