Marina Abramovic: a avó da performance

USP

16 de fevereiro de 2018  |  por Sala 33

Marina Abramovic: a avó da performance

Imagem: Bruno Carbinatto/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

“Demorou muito tempo para mostrar que a performance é arte, e, quando aconteceu, a sociedade e a mídia me levaram para o lugar que estou agora”*, disse Marina Abramovic em entrevista para CNN. Em uma fusão de teatro, dança, audiovisual, poesia e artes plásticas, as performances são a representação do sincretismo que é a arte moderna: nada mais é puro, todos os recursos são utilizados na construção de obras.

A vencedora do Leão de Ouro de 1997 como Melhor Artista pelo vídeo da perfomance Balkan Baroque, Abramovic  é um ícone da performance art e impactou o mundo com suas diversas obras que, para levar o espectador à reflexão que deseja, atinge seus  limites físicos e o psicológicos.

Nascida em Belgrado (capital antiga Iugoslávia, atual Sérvia) e filha de militantes do Partido Comunista Iugoslavo, a resistência à dor que a performer possui é atribuída à intolerância dos pais a fraqueza e reclamações, uma vez que desde cedo a artista viveu em um ambiente autoritário e com pouco afeto.

 

Rest Energy (1980)

Imagem: Desconhecido

Marina Abramovic teve um relacionamento que durou 12 anos com o performer Ulay (apelido de Frank Uwe Laysiepen). Os dois construíram uma carreira juntos, criando várias obras que falavam sobre o amor e a ligação que as pessoas estabelecem umas com as outras, mostrando o quanto isso pode ser danoso e criar dependência.

Nessa performance, Marina segurava um arco enquanto Ulay puxava, apontando uma flecha diretamente para seu coração, ao mesmo tempo que os dois se tombavam para trás com a intenção de ir aumentando gradativamente a tensão da arma. Enquanto faziam isso, um microfone permitia aos espectadores ouvir os batimentos cardíacos dos dois artistas. Quanto mais eles aumentavam a tensão da flecha, mais perigoso ficava.

“Embora tenha durado apenas quatro minutos e dez segundos, eu estou lhe dizendo, para mim foi para sempre. Foi uma performance sobre a confiança total”*, disse a artista sobre a obra. O significado de tudo isso pode ser interpretado como a entrega que os casais se permitem e como  pode ser perigoso para ambos, porque sempre estarão com uma flecha apontada para o peito, ameaçada pelas atitudes de seu amor.

 

Rhythm 0 (1975)

Imagem: Marina Abramovic Institute

Essa deve ser a performance mais conhecida de Abramovic , por ter causado um impacto gigante no mundo da arte, chocando todos que a assistiram e foram alcançados por sua repercussão.

Durante seis horas, a artista se apresentou como um fantoche para o público e deixou disponível mais de 72 objetos de todos os tipos para fazerem o que quisessem com eles e com ela. Ao fazer isso, Marina estava exposta a qualquer tipo de coisa que seus espectadores quisessem fazer, mas mais uma vez ignorou seu lado físico e se focou na entrega total à arte. “Uma vez que você entra no estado de performance, você pode impelir seu corpo a fazer coisas que jamais você normalmente faria”*, palavras da performer.

No começo, os participantes estavam agindo com delicadeza e respeito, fazendo carinho, beijando, mexendo em seus braços. Porém, depois de um tempo, a performance tomou um caminho muito violento e chegou ao ponto de participantes beberem sangue de um corte do seu pescoço e a fazerem segurar uma arma apontada para sua cabeça. Abramovic estava disposta a passar por qualquer coisa pela performance e continuou imóvel.

Ao final do tempo, o público foi avisado do final da obra e a artista andou pela galeria, encarando os participantes. Nenhum deles conseguia olhá-la nos olhos por conta do que tinham feito a ela, por tê-la objetificado e passado dos limites da interação entre artista e público. Tudo isso foi feito para explicitar a brutalidade do ser humano quando não tem regras, limites e não vai ser punido pelo que fizer.

 

The Lovers – The Great Wall Walk

Imagem: Desconhecido

12 anos depois, o intenso relacionamento de Marina com Ulay chegou ao fim. Mas é claro que os dois performers não terminariam em uma simples discussão de relacionamento. O rompimento do casal se tornou um grande evento e uma das maiores obras da carreira dos dois.

Para deixar marcado na história da arte e da vida, eles se propuseram a andar toda a extensão do Muralha da China e se encontraram no meio dela, como despedida. Originalmente, o projeto era fazer o casamento dos dois artistas, mas, como o governo chinês demorou nove anos para autorizar a caminhada, a obra se encerrou com o rompimento do relacionamento.

Abramovic começou sua jornada na cabeça do Dragão (como é chamada a Muralha), que fica no mar Amarelo, representando a água, e Ulay saiu do final do dragão, no deserto de Gobi, representando o fogo. Após se encontrarem, cada um seguiu seu caminho como artista independente e sem os laços daquele relacionamento.

“Foi um fim muito dramático e muito doloroso”*, disse Abramovic  para a descrição da obra no MoMA.

The Artist is Present

Imagem: Desconhecido

Nome da performance mais célebre da artista até hoje, da exposição feita no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque e do seu documentário de 2012, presença é algo que define bem a carreira de Abramovic  no mundo da arte.

Nessa obra, que durou 512 horas durante três meses, seis dias por semana e sete horas e meia por dia, era possível que o espectador sentasse de frente para a performer e a encarasse, sem dizer nada, apenas mantendo o contato visual e aproveitando-se da energia que aquele momento possuía. A artista estava realmente presente e dedicou horas de sua vida para se conectar com mais de 1000 pessoas durante o tempo em que a exposição sobre suas obras durou.

A experiência levou muitos às lágrimas e rendeu um vídeo que ficou famoso na internet, quando Ulay foi visitar o MoMA e se sentou na frente de Marina.

71 anos com a bola toda

Ultimamente, Abramovic  tem dado cursos para performers que estão iniciando no mundo da arte, ensinando exercícios físicos que levam o corpo aos extremos que está acostumada. Para participar de sua mega exposição no MoMA, os artistas deviam ficar dias isolados em um sítio onde não podiam falar ou comer e enfrentavam situações com temperaturas extremas.

Para eternizar sua marca no mundo da arte, tem publicado livros com a história de suas obras e em 2012 lançou um documentário que resume um pouco sua trajetória pessoal e artística, além de mostrar os bastidores da organização da exposição que reuniu suas maiores peças.

Uma coisa é certa: Marina Abramovic não vai ficar parada.

Autora: Giovana Christ

Foto: Bruno Carbinatto

Fonte: Jornalismo Júnior (USP)