Movimento hippie inspira jovens no mundo inteiro

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Desconstruir a ordem, ousar, trazer à tona discussões a respeito de liberdade, ir contra o padrão capitalista predominante nos Estados Unidos e pregar como lema a paz e o amor. Isso tudo em meio a um cenário conturbado pela Guerra Fria. Os movimentos de contracultura, ou movimentos hippies, surgem em 1960 a partir de uma iniciativa social formada predominantemente por jovens que tinham como proposta se opor e questionar o padrão sociocultural do período.

A contracultura foi uma ruptura com os modelos instituídos pela sociedade da época. Tratou-se de um período no qual se passou a explorar novas experiências, novos estados de consciência, trabalhos artesanais, transportes alternativos, liberdade sexual, uso de enteó- genos (substâncias usadas para alterar estados de consciência), pinturas psicodélicas e pensamento ecológico.

Apesar de surgir em um contexto particular, esse ideário deixou heranças até hoje perceptíveis. “Eu acho que não há mais um grande movimento como houve em 1960, mas acredito que existam pequenas agitações que carregam ideais daquele período”, diz a pesquisadora Caroline Thibes, que analisou em sua dissertação de mestrado o legado deixado pelo lendário festival de música de Woodstock, celebrado em 1969.

A geração da contracultura assumiu uma postura crítica ativa. “O movimento trouxe um debate ecológico e uma reflexão sobre o consumismo exacerbado”, denota a designer de moda Carla Pereira. Ela também acredita que a contracultura rompeu paradigmas, principalmente no universo da moda, pois passou a explorar o encontro entre Oriente e Ocidente por meio de combinações tidas até então como excêntricas. “ A moda foi um meio de manifestação e trouxe uma variedade de estilos”, completa.

Imagens de Janis Joplin, que tocou no mítico festival de Woodstock em 1969 | Foto: Reprodução de internet

Hippies do século 21

Segundo o antropólogo Eduardo Benzatti, professor da ESPM, não há mais um “movimento hippie” claro hoje, mas são notáveis os reflexos daquela onda. “Muitos novos hippies vivem em comunidade e ainda utilizam o trabalho manual como fonte de renda, porém seus filhos estudam em colégios particulares”, diz.

Nesse sentido, esse movimento ainda busca fugir do padrão sociocultural, desprezando o capitalismo, negando trabalhos mais massificados e mantendo a característica do trabalho artesanal como fonte de renda. Porém, seus filhos já adotam os padrões dominantes.

A ideologia hippie de liberdade se manifesta em vários comportamentos dos neohippies de hoje. Um deles é o naturismo, vertente que explora o nudismo de forma cotidiana e sem apelo sexual. Pedro Ribeiro é naturista há mais de 20 anos e ex-presidente da Associação Naturista da Praia do Abricó (RJ).

Ribeiro explica que é muito interessante o modo como as pessoas do local se comportam. “Famílias inteiras vão até lá e interagem normalmente, idosos, adultos e crianças aproveitam o espaço sem qualquer constrangimento.” Ele complementa falando a respeito da liberdade que era incentivada naquele período, principalmente a liberdade da mulher.

Na década de 1960, os movimentos de contracultura defenderam fortemente a igualdade de gênero, e os adeptos a essa ideologia passaram a usar roupas unissex e a adotar cabelos longos como forma de protesto ao padrão da época.

Música

E não foi só no naturismo que deixaram sua marca. Características hippies permanecem em hábitos e na forma como se produz cultura. Na música, os reflexos da contracultura se manifestam na oposição à grande indústria. “O próprio movimento tropicalista foi uma das formas do movimento contracultural chegar no Brasil. Essa ideia de você produzir fora das grandes gravadoras seria impossível antes”, explica Benzatti.

O compositor e filósofo Samuel Braga concorda com o antropólogo e diz que a tropicália representa a arte pela arte, conceito defendido pelo movimento hippie. Braga também explica que essa geração abriu caminho para que as demais explorassem ao máximo suas particularidades. Isto é, antes o modo de produzir conteúdo era quadrado e dominado pelas grandes indústrias, agora há mais liberdade de criação e certa independência. “A importância primordial, não só no cenário musical, foi ter como mote abolir conceitos arraigados em nossa cultura há séculos”, explica.

A banda alternativa Guaribas é herdeira do movimento hippie. Segundo o grupo, a intenção é “manter a música o mais orgânica possível”. Ou seja, evitar computadores na composição.

 

Músicos da banda Guaribas, que mantêm os ideais hippies e evitam uso de computadores nas suas composições | Foto: Stephanie Frasson

O grupo também se identifica com o movimento hippie por fugir do meio tradicional de produção capitalista. Théo Silveira, que é vocalista e baterista da banda, explica que eles acreditam ser importante manter a produção longe de gravadoras, para criar sem interferências. Todos os integrantes acreditam que o mais importante é explorar novas formas musicais e não necessariamente ganhar dinheiro e tocar nas rádios.

Convivência

No coração da Vila Madalena, um oásis em meio ao concreto. Com rede, árvores frutíferas, práticas espirituais e até mesmo um sistema de captação de água das chuvas, a Casa Jaya condensa na capital paulista todo o legado que o movimento hippie deixou. Caio Ramos, ou Céu Azul, como gosta de ser chamado, é um dos fundadores do local.

Ele explica: “Acho que essa casa é fruto de tudo o que foi deixado para a gente, dos nossos pais, dos nossos avós, que criaram esse movimento. Não só os hippies, todos os movimentos de contracultura, de libertação. E a gente com certeza se inspira mesmo nesses princípios, que não mudaram muito, que são de paz e amor”.

Para ele, o espaço é um verdadeiro local de resistência. “Às vezes a gente vê que essa cidade transformou os cidadãos em pessoas apressadas, frias, irritadas, nervosas, preocupadas, inseguras.” Por isso, a criação da casa era mais que necessária.

No começo, os fundadores tiveram suas dificuldades. “A gente não sabia como ia ser, como a gente ia dar conta, nem imaginava que ia chegar a ser como é hoje, que está superestruturada e reconhecida. É fruto de muita devoção: ninguém tinha nenhuma intenção comercial com a casa no começo, não ganhava nem um real, era todo mundo voluntário. A gente investia o nosso tempo e também dinheiro para estar aqui, para fazer essa casa acontecer”, revela.

Detalhes da Casa Jaya, na Vila Madalena, que atualiza princípios da contracultura dos anos 1960 e busca aplicá-los à resolução de problemas do mundo atual | Fotos: Stephanie Frasson

Histórico

Para entender a Jaya, é preciso entender um pouco mais a história da contracultura. Após o boom de Woodstock, com tanta gente aderindo a esse novo pensamento, sentiu-se a necessidade de promover novos encontros para debater aquele modo de vida. Assim foi criado o Rainbow Gathering. “Uns brasileiros conheceram e trouxeram pra cá esse encontro, mas de uma maneira diferenciada. Era um encontro pra fortalecer quem queria se instalar na terra, montar uma comunidade rural, criar uma comunidade alternativa. E eles chamaram de ENCA, Encontro Nacional das Comunidades Alternativas”, completa Céu Azul.

Hoje o evento mais importante do movimento alternativo no Brasil, o ENCA foi um impulso para a criação da Casa Jaya: “Eu conheci esse encontro em 2006 e mudou muito a minha vida, completamente. É como se eu estivesse procurando isso a vida inteira e nem sabia assim, dessa família, sabe?”, relata Céu Azul.

“Durante esse encontro a gente busca experimentar viver da maneira que a gente acha que pode viver, diferente de como estão impondo para a gente. No ENCA tudo é compartilhado, tudo é colaborativo, voluntário.”

Pensando em trazer esse espírito para a capital paulista, os amigos decidiram achar um lugar para se reunir, sem perder aquela essência. De dança africana a meditação, de “pizzadas” a ioga para gestantes e aulas de astrologia, a Casa Jaya é um reduto dos hippies brasileiros.

Para Céu Azul, essa é justamente uma das características que os diferenciam dos jovens de 1968: “Uma coisa importante que eu sinto desse novo movimento alternativo é que ele está mais para englobar do que para separar. Está mais para absorver diversos movimentos. No começo daquele movimento hippie, acho que era mais separado, segregado, e agora está cada vez mais integrado. Então, tudo o que for cultural, o que for da paz, o que trabalhar o corpo, o movimento, o que trouxer alegria, está dentro desse movimento, e não necessariamente uma aula de ioga ou uma meditação”, conta. Para ele, o alternativo hoje não quer ficar à margem: ele busca ser uma solução para problemas atuais, para combater a cultura do consumismo e do descarte.

Autoras: Gabriela Soares e Stephanie Frasson

Fonte: ESPM