“Sem família”, trans na vida real pode terminar “prostituído ou morto

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  1. À esquerda, Ivan(a), personagem de Carol Duarte; à direita, Matheus, transexual. (Fotos: divulgação/arquivo pessoal)

Em um sábado (21) , a novela “A Força do Querer”, transmitida pela Rede Globo, chegou ao seu fim. Na trama, a história de Ivan(a), personagem interpretado por Carol Duarte, ganhou a atenção do público. Ivana se descobre transexual no meio da história, quando ainda era identificado como mulher. O caso retratado na novela levou espectadores a discutirem assuntos relativos à sexualidade e identidade de gênero. A história da conquista de Ivan, apesar de fictícia, está muito próxima da realidade.

Do outro lado da telinha, na vida real, vemos a história de Matheus Vidal Rosa, 23 anos, que tem algo em comum com o personagem da novela. Original da capital paulista, Matheus nasceu mulher e foi registrado como Marília. Desde criança dizia ser menino e gostava de se vestir da maneira que se sentisse melhor. Ao longo de sua vida, passou por oito escolas diferentes, para escapar de bulliyng na maioria dos colégios em que estudou.

Na adolescência, acreditava ser lésbica. “Não tinha conhecimento sobre transexuais, achava que eram travestis ou drag queens”. No colegial tentava se provar, utilizava roupas mais femininas e maquiagem. Apenas no cursinho, se sentiu mais confortável começou a se soltar mais.

Identificação

Desde criança, já gostava de jogar futebol. Quando terminou o colégio, foi para os Estados Unidos tentar uma carreira no esporte. Lá, jogava com os meninos e se sentia livre, mas acabou machucando o joelho e teve de voltar ao Brasil em 2014. Ao voltar, prestou vestibular na ESPM, zona sul de São Paulo e ingressou no curso de publicidade e propaganda. Na faculdade, entrou no time de futsal feminino e disputou campeonatos universitários pelo time da ESPM.

Em 2015, Matheus teve contato com o Coletivo Coralina (coletivo feminista da ESPM) e começou a frequentar os encontros do grupo. Lá, teve acesso a informações sobre transexualidade e se identificou. Posteriormente, levou essa questão para o psicólogo, mas não foi compreendida como trans. Estava ansiosa, depressiva e ganhou muito peso. Em 2016, estava namorando uma menina e decidiu contar que achava ser transexual, mas terminou o relacionamento após se sentir desrespeitado com a reação da ex-companheira.

No começo de 2017, o jovem se sentia muito preso e começou a pensar no processo de mudança de sexo. Para isso, contou com a ajuda de uma psiquiatra. Em agosto, começou o processo de hormonização. Após se assumir como transexual, começou o processo de mudança de sexo. Entrou com o processo de transição e fez um post público em sua rede social, anunciando sua decisão. Depois, foi à secretaria da faculdade pedir para que mudassem o nome dele no sistema e na carteirinha. Marília gostaria de ser chamado pelo seu nome social, Matheus, e não mais pelo nome de registro. Para sua surpresa, foi prontamente atendido. Na segunda semana de aula, o nome na lista de chamada era o social. Na carteirinha de acesso à faculdade, agora consta os nomes social e de registro. Já no processo de transição, o garoto agora quer entrar no time de futsal masculino e pretende voltar a disputar campeonatos universitários.

Preconceito

Matheus já sofreu preconceito algumas vezes e chegou a ser agredido em uma festa realizada por estudantes da faculdade: “Fui cumprimentar uma amiga que estava acompanhada de um homem. Quando ele viu eu me aproximando dela, me deu um soco na cara”, relata. Com episódios de confusão nos casos de preconceito, chegou a pegar fama de brigão, rótulo que o desagrada: “Não gosto de abaixar a cabeça para o preconceito. Eu exijo ser respeitado”, afirma.

Perguntado sobre qual banheiro utiliza, o jovem diz ter medo de sofrer preconceito em banheiros. Não se sente confortável utilizando o banheiro feminino, mas só vai nele, pois as meninas já estão acostumadas com sua presença lá.

Outra preocupação do rapaz é em relação ao mercado de trabalho. Matheus chegou a fazer estágio em uma agência de publicidade, mas ainda era identificado como Marília. “Acredito que vou ter dificuldades para achar emprego. O Brasil ainda tem muito preconceito com os transexuais”. Segundo levantamento feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% das pessoas trans já recorreram a prostituição alguma vez na vida.

O garoto destaca a estrutura familiar, que lhe deu a condição de estudar em uma faculdade particular e de dar acompanhamento médico durante a transição de sexo. Ele acredita que seria muito mais difícil se pertencesse a classes mais baixas. Ele também destaca a diferença com que os homens e mulheres trans são tratados. ”É muito mais difícil ser mulher trans. A sociedade tem ainda mais resistência em aceitar que um homem vire mulher, do que o contrário”, analisa Matheus.

Autor: Mário Furchineti Garcia

Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Fonte: ESPM