“A banalização da informação é o que mais me preocupa nos dias de hoje”, afirma o repórter investigativo Márcio Harrison

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Repórter investigativo Márcio Harrison analisa os desafios da profissão. 

Ao conceder entrevista ao DONC (De Olho Na Carreira) Marcio Harrison, repórter investigativo da Record, analisa Fake News, comenta os desafios do jornalismo investigativo e dá dicas para aqueles que desejam seguir nessa área.

Márcio começou a carreira trabalhando como radialista, é formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Santos e também em Direito. Os temas abordados na entrevista são recorrentes da vida de jornalistas cujos nomes e rostos não são tão conhecidos, mas que são fundamentais para o relato das informações divulgadas.

DONC: Como é ser um jornalista investigativo?

Márcio: Ser um jornalista investigativo é ter fontes e, para ter fontes, tem que ter contatos. É preciso ir nas delegacias, nos distritos policiais, buscar informações no ministério público, na magistratura, no instituto de criminalística. Você precisa ter uma cadeia de informações e fontes fidedignas para que possa realmente te dar uma informação precisa e certeira. O princípio básico do jornalismo investigativo é, além de ter fontes, sempre checar com outras fontes para ter certeza do fato e não perder credibilidade.

DONC: Quais são os desafios que um jornalista investigativo enfrenta?

Márcio: O principal desafio é você encontrar casos bons, casos de repercussão, ficar sempre antenado e investir em um caso que mereça. Não é fácil, tem que ter um tato para você mensurar aquilo que vale a pena e o que não vale, é uma dedicação integral o tempo inteiro.

DONC: Quais as principais características que um profissional desta área deve ter?

Márcio: Uma das dicas é não acreditar totalmente em fontes oficiais porque elas vão sempre ter a tendência de diminuir a importância do fato. Não se basear apenas pelas estatísticas governamentais. O bom jornalista investigativo procura encontrar o outro lado da notícia e de outra forma, sempre investigando e checando todas as informações.

DONC: E como está o mercado de trabalho atualmente para quem atua nessa área?

Márcio: Com a não obrigatoriedade do diploma de jornalismo que foi tirada pelo Supremo Tribunal Federal, nossa profissão recebeu uma pancada na cabeça. A gente pode ver nas redes sociais todo mundo fazendo jornalismo e eu me pergunto: Que qualidade que tem? Quem está checando?

DONC: O que mudou no jornalismo, para você, desde o início da sua carreira até os dias de hoje?

Márcio: O que mudou do passado para o presente foi a banalização da informação. O acesso a informação está muito fácil e tem muita gente mentirosa, as chamadas Fake News, que passam notícias como se fossem verdadeiras, com credibilidade. As pessoas estão sendo muito crédulas, acreditando em tudo e em todos. Um ótimo exemplo foi o caso Fabiane que cobri, uma jovem moça que foi tida como matadora de criancinhas por magia negra e foi assassinada a paulada, graças a esses mitos urbanos.

DONC: Você cobriu o assassinato das jovens Fabiane e Solange, como é cobrir esse tipo de caso impactante?

Márcio: No caso Fabiane eu estava indo para o shopping quando, de repente, a polícia militar me acionou, o tenente me ligou e disse: “Márcio eu estou aqui com uma senhora que está sendo morta por mitos urbanos”. Quando eu cheguei lá, eu nunca tinha visto tanta gente, umas 10 a 20 mil pessoas assistindo como se fosse uma arena popular. Quando tiramos a Fabiane de lá, eu, a polícia e os bombeiros fomos apedrejados, por pouco não acontece uma tragédia maior. A Solange foi jogada da pedra do Anchieta em Itanhaém e morreu de poli traumatismo. É realmente difícil.

DONC: Você deve se lembrar do assassinato de Tim Lopes (2002), como você reagiu ao saber a tragédia que aconteceu com um colega de profissão?

Márcio: Foi muito triste, eu estava no terceiro ano de direito quando o Tim Lopes foi morto e queimado no chamado “micro-ondas” (EXPLICAR). Ele foi morto com requintes de crueldade enquanto fazia uma matéria que, apesar de não me lembrar muito dos detalhes, era muito importante. Foi um golpe duro para o jornalismo investigativo porque nós colocamos o bem mais precioso que temos em risco: a nossa vida. Quando isso veio até nós, que exercemos jornalismo de segurança pública, em especial o investigativo, foi um sinal vermelho.

DONC: Para finalizar, qual dica você pode dar para os jovens interessados em seguir carreira no jornalismo investigativo?

Márcio: A dica que eu dou é a pessoa ser vocacionada. A profissão tem que ter escolhido a pessoa. Por dinheiro, existem muitas outras profissões na frente. Ao ouvir o primeiro não da carreira é importante que o jovem não desista, mas é preciso não se deixar abater e ficar deprimido. As dificuldades que um recém-formado tem de querer ganhar um dinheirinho para se sustentar, ajudar o pai e a família, não podem deixar que isso os façam desistir.

Autor: Fabrício Julião Filho

Foto: Arquivo pessoal

Fonte: ESPM