Eles comem sobras

PUC-RS
Centenas de pessoas dependem das sobras de hortifrutigranjeiros da Ceasa para não passar fome
Centenas de pessoas dependem das sobras de hortifrutigranjeiros da Ceasa para não passar fome

Por entre a multidão, enquanto a luz alaranjada do sol entra pelas muitas janelas do galpão, o vulto de um menino corre esquivando-se de corpos, caixas e carrinhos.  Com agilidade e destreza nos pés, ele desvia dos obstáculos, firme e certo como uma bala. Ele carrega, envolvidas na blusa, meia dúzia de bergamotas e um molho de espinafre, que segura com as pequenas mãos rumo à saída da Pedra, o pavilhão central. No local, produtores de grãos, legumes e frutas vendem aos comerciantes os alimentos que abastecem os mercados de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Os produtos que aquele menino recolheu às pressas fazem parte de uma parcela de legumes e frutas que são desprezados, todos os dias, por estarem machucados ou mais maduros que o padrão estético de venda. Meninos como aquele não podem se dar ao luxo de desprezar alimentos. Meninos como aquele disputam o desperdício. Meninos como aquele comem sobras.

Fazia calor. Era mais um daqueles dias de Primavera, que amanhecem gelados e depois esquentam. Do lado de fora, com as bergamotas e o molho de espinafre, o menino alcança duas mulheres e um homem. Os três estão sentados no gramado sob a sombra de um jacarandá. Falam pouco. O menino, que usa um boné preto, entrega os alimentos com sorriso tímido, comenta sobre ter conseguido um legume muito bom e que voltaria lá para buscar. Ele pega um gomo de bergamota e retorna correndo à Pedra. Em frente ao casal sentado, dois caixotes de feira acumulam frutas e legumes já obtidos no pavilhão. Eles não são os únicos, são apenas três entre mais de 20 pessoas que se concentram perto do jacarandá naquele dia abafado. Muitas são mulheres, mães e filhos.

“A pior dor na face da Terra é a dor da fome, não ter, ver os outros comendo e não poder comer, ver teus filhos pedindo e não ter pra dar. Eu já passei por isso”, lamenta Ilda Celina Cavalheiro, 33 anos, mãe de Davi, o menino de 12 anos que corria por entre as frestas da Pedra com as bergamotas e o molho de espinafre. Junto ao filho e ao companheiro, Douglas Paz Victória, 32 anos, eles percorrem aproximadamente 16 quilômetros em um Gol antigo, que nem os vidros das janelas tem mais, desde o Morro Santana, zona leste de Porto Alegre, até a Ceasa, onde conseguem cenoura, couve e frutas – naquele dia, fizeram o percurso com apenas R$ 13 de gasolina.

O casal sabe bem o que é passar fome. Ambos já vivenciaram, individualmente, dificuldades nas ruas. Ela foi garota de programa, ele foi viciado em crack. Eles se conheceram no Feijão com Arroz, uma festa no centro de Porto Alegre. Na época, Douglas era taxista e estava fazendo uma corrida para lá. Resolveu entrar na festa e viu Ilda dançando. “Uma semana depois já tava na casa dela, no morro Santana”, lembra ele, em meio a sorrisos. Mas o semblante de Douglas muda quando ele relembra o que passou durante a infância.

“Eu comecei a usar crack com o meu pai. Aos 11 anos, eu andava sozinho na rua, sempre tive o apoio da minha mãe, mas sempre morei sozinho porque eu não aceitava ele dentro de casa, ele me espancava, me colocava pra fora. Eu queria andar de bicicleta e não tinha, eu queria ir em um aniversário e meu pai me deixava trancado no banheiro. Muitas coisas dessas eu não tive, sabe?”. O relato de Douglas é com voz embargada. “Às vezes as pessoas só precisam de um abraço, um carinho, amor”, tenta explicar com lágrimas cravadas no rosto. O menino sai do colo da mãe para abraçar o padrasto. “Por isso que eu amo esse homem, por isso ele merece amor e carinho”, diz Ilda, emocionada, sorrindo. Atualmente ela trabalha como atendente em uma tabacaria. Ele é prestador de serviços gerais em uma empresa de Canoas. Ainda assim, uma vez por semana o casal busca com produtores os alimentos para que seriam descartados.

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Apesar de ser considerado um atacado de hortifruti e não uma feira, o centro de distribuição dos alimentos da região metropolitana de Porto Alegre, a Central de Abastecimento (Ceasa), fundada em 1974, ainda recebe frequentadores que buscam nas sobras o seu sustento. Em dias de grande movimento, chegam a circular 45 mil pessoas nos pavilhões da Ceasa. A confusão é grande. As 470 bancas, organizadas em 94 fileiras, expõem verduras, frutas e legumes. O cheiro no local é um misto de hortifruti e pastel frito, vendido nas lancherias dentro do pavilhão. Homens conduzem carrinhos cheios de caixas empilhadas umas sobre as outras com os produtos vendidos pelos comerciantes. As vozes reverberam pelas paredes. Produtores, comerciantes e consumidores estabelecem diálogos dinâmicos durante as negociações.

-“Trinta reais? Mas isso tá muito caro!”

-“Não sai por menos?”

Cascas e restos de alimentos que caem das caixas vão se acumulando pelo chão de cimento. Muitos deles são condenados ao desperdício. Entre os corredores de caminhões que se formam ao entorno da Pedra, na área do estacionamento, um homem com metade do corpo para dentro da caçamba do veículo joga, com desdém, por cima dos ombros, os tomates que contêm marcas na pele. As frutas voam de dentro da estrutura de alumínio e explodem no asfalto, pintando-o de vermelho.

Os alimentos excedentes poderiam ser recolhidos para o projeto social da Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa), o Prato Para Todos, que realiza a doação desses hortifruti para as 208 entidades – creches comunitárias, instituições filantrópicas ou asilos – cadastradas no programa do Governo do Estado em parceria com duas empresas, o Sesc e a Seven Boys. De acordo com Ivanise Mancio, coordenadora pedagógica do programa, são 51 mil pessoas atendidas por mês. Toda sexta-feira, os mais de 20 produtores que contribuem com o programa deixam seus excedentes para que sejam separados para as doações. Em setembro, foram repassados 78.599 kg de hortifrutis pela Ceasa. Além de atender instituições, há ainda 200 famílias que recebem um complemento da alimentação uma vez por semana, o que não seria o suficiente para Ilma Orizontina, 46 anos, que vai à Ceasa duas ou três vezes por semana para alimentar 13 bocas em casa.

Ilma pedala 9,3 quilômetros até a Ceasa
Ilma pedala 9,3 quilômetros até a Ceasa

Entre filhos, marido, netos, quem cuida da família é a matriarca de cabelos encaracolados e meio grisalhos. De bicicleta, Ilma pedala 9,3 quilômetros até a Ceasa ao lado do genro, Patrick. Repetem o trajeto de volta, carregados de sacos de cenouras, pêssegos e sacolas com garrafas pet e materiais plásticos para reciclar. “Eu venho faça chuva, vento, sol. Preciso disso aqui”, aponta para o saco que exala um cheiro azedo. Logo se senta no gramado e, com uma faca, corta os pedaços podres das batatas que retira de dentro do saco. “Se eu não venho, toda a família passa fome, ainda mais agora que cortaram o meu Bolsa Família”. Quase vinte quilômetros sobre uma bicicleta não parecem muito para a mulher que cruzou 614 quilômetros em busca de melhores oportunidades. Foi em 1984 que Ilma deixou São Borja, na fronteira com a Argentina, para tentar uma vida na Capital. Marcas de expressões desenhadas pelo sol contornam os olhos, a voz e o olhar são de quem não encontrou as promessas ouvidas na cidade do Interior. Ilma trabalhou como auxiliar de cozinha, mas atualmente está desempregada e, ainda assim, sustenta o lar com a persistência de quem não pode se permitir desistir.

Patrick e Ilma
Patrick e Ilma

O mesmo país onde 3,5 milhões de pessoas passam fome desperdiça 41 mil toneladas de alimento por ano, conforme o Instituto Internacional de Investigação sobre Políticas Alimentares (IFPRI) e a World Resources Institute (WRI) Brasil, respectivamente. O número pode ser maior, 7 milhões de brasileiros passaram fome em 2013, conforme pesquisa divulgada em 2016 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com pesquisa realizada por professores da Universidade de Cambridge, da PUCRS e da UFRGS, a pobreza monetária atinge 11,3% da população de Porto Alegre, ou seja, mais de 150.000 pessoas vivem nesta condição. Por pobreza, neste dado, compreende-se a insuficiência de renda ou baixo nível de recursos, bens primários ou necessidades básicas. No entanto, o intuito do estudo é justamente compreender as múltiplas camadas da pobreza, portanto, para além da renda, as dimensões de habitação, saúde e educação são incorporadas ao conceito. A pobreza deve ser entendida desde os aspectos mais elementares, como privação de capacitações básicas, e aspectos como estar bem nutrido, saudável e livre de doenças evitáveis e da morte prematura, até aspectos de maior complexidade, como ser feliz, ter respeito próprio e participar da vida comunitária, de acordo com o estudo.

Entre os que vivem situação de insegurança alimentar, apenas uma parcela consegue acessar a Ceasa. Douglas e Ilda sabem disso. Além de usarem as sobras para a alimentação da família, ainda lembram de quem tem menos que eles. Destinam não apenas para o próprio prato, mas transformam um pouco do que arrecadam em alimento para dezenas de pessoas que hoje estão em situação de rua e habitam o centro de Porto Alegre. “Botamos umas madeiras, lenhas e esquentamos o panelão na rua mesmo e, como não temos pote nem colheres, nós cortamos as garrafas pet e caixinhas de leite no meio e servimos o sopão”, explica Douglas.

Também nas ruas vivia Vitória, de 13 anos. A mãe, viciada em crack. O pai, ausente. Foi a tia, Cláudia, quem, há cerca de um ano, adotou a menina e a acolheu na casa cujo terreno compartilha com as irmãs. Sentadas em um banco nas proximidades da Pedra, na mesma pracinha onde muitas famílias ficam, Cláudia e Andreia Pinheiro conversam com semblantes sérios. No chão, ao redor das irmãs Pinheiro, cerca de dez mochilas estão espalhadas. Elas estão cheias de laranjas, bergamotas, alfaces, bananas.

Vez em quando aparecem as duas meninas que, aos risos, entregam algumas frutas e voltam para dentro do galpão. São Vitória e Quetelin, filha de Andreia, seguindo um esquema já conhecido. Há cerca de quatro meses, a rotina havia se tornado familiar para aquelas mulheres, quando a mãe, responsável pela renda da família, faleceu. A avó delas costumava pedir as sobras nas feiras para levar os alimentos para casa. Depois, a mãe passou a fazê-lo. Agora, filhas e netas são responsáveis por alimentar o lar da família Pinheiro. Elas moram na Vila Augusta, em Viamão. Levam quase duas horas de ônibus até a sede da Ceasa, localizada no bairro Anchieta, em Porto Alegre, quase na divisa com Canoas. Antes, faziam o todo trajeto de ônibus e a pé, mas naquela semana começaram a voltar de Uber, graças ao dinheiro que Cláudia recebeu do Bolsa Família, programa social do governo brasileiro, direcionado às famílias em situação de pobreza ao redor do país. Cláudia é uma das mais de 13,9 milhões pessoas atendidas pelo programa. Sem a possibilidade de se locomover com o transporte privado por aplicativo, elas teriam que pegar dois ônibus e ainda caminhar um bocado para chegar em casa. Tudo isso carregando uma dezena de sacolas lotadas com as sobras da Ceasa que conseguiram para alimentar a família. Além do pai, ao todo, são seis irmãos. Cada irmão tem de seis a sete filhos, que acabam passando bastante tempo com Andreia e Cláudia. “É uma família bem grande”, afirmam elas, em tom orgulhoso. Após a perda da mãe, a renda da família diminuiu bastante, e as irmãs assumiram a missão de ir uma vez por semana na Ceasa. “A gente leva tudo isso pra dividir”, garante Claudia, apontando para as sacolas com frutas diante de si.

André trabalha há 30 anos na Ceasa
André trabalha há 30 anos na Ceasa

Os produtores que jogam alimentos no contêineres são exceção. Luiz André Sauer, de 47 anos, da cidade de Feliz, tenta, sempre que possível, ajudar os que frequentam a Ceasa. Há 30 anos, quatro vezes por semana, André, um homem de feições de origem alemã, deixa a família no município de Feliz, distante 87 quilômetros da Capital, para trabalhar na Ceasa. Ele frequenta o local há bem mais de 30 anos, se contar as vezes em que ia acompanhar o pai, que fazia a Ceasa em Caxias do Sul. Desde 1982, passou a vender na central de Porto Alegre. Hoje, quem dá continuidade ao negócio paterno é André e o irmão. Um cuida da lavoura, o outro se dedica à venda. “É tudo junto. Eu também ajudo ele lá, mas pra cá faz uns dez anos que ele não vem”. A divisão é feita assim, não por André gostar mais de estar na Ceasa, mas por conhecer bem os clientes e o funcionamento local. Com um brilho nos olhos, ele confessa. “Lá fora é outra vida, é bem mais desistressante. Aqui tu trabalhas mais livre”.

Ali, nas bancas 66D e 67D, uma grudada na outra, as mesmas que eram usadas pelo pai há alguns anos, nos horários de pico a confusão é grande. Geralmente mais de cinco pessoas compram ao mesmo tempo, sem fila ou nenhuma organização. “Um pergunta o preço do aipim, outro pergunta o preço de outra coisa. Um tá pagando aqui, e o outro pagando lá. E ainda tem que ficar cuidando para ver se ninguém vai levar algo sem pagar”, conta o produtor. Ele sempre separa os alimentos que não serão vendidos aos compradores maiores, geralmente donos de mercados, mas que ainda estão bons para consumo. Guarda os hortifrutis para vender bem mais barato, ou então doar aos que passarem pedindo. No dia em que a reportagem visitou a Ceasa, alguém levará para casa pepinos, que estão em uma caixa, que nem foi exposta junto com as outras, separada no canto direito da banca de André.

Na Ceasa, os alimentos desperdiçados se espalham pelo chão feito escombros de uma batalha ainda não perdida. E os que se recusam a deixar derrotar são crianças como Davi, que nas pequenas mãos segura os frutos com a firmeza de saber que com isso, Douglas e Ilda multiplicam o alimento não só para a própria casa, mas para dezenas de pessoas que não têm o que comer. São mulheres como Dona Ilda, que carrega em sua bicicleta quilos de verduras para alimentar mais 13 pessoas. Como Cláudia e Andreia, persistentes, garantem o prato de comida na mesa da família. Para não fazer parte dos 1,6%, esses personagens resistem. Porque resistir é a forma que encontraram para viver.

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Autores: Annie Castro e Gabriela Rabaldo

Foto: Annie Castro e Gabriela Rabaldo

Fonte: PUC-RS